Zé Ramalho Mostra Raridades Do Baú


Por Beto Feitosa

Zé Ramalho abre seu baú e revela jóias do início da carreira. Zé Ramalho da Paraíba, o CD duplo, traz gravações feitas no início da carreira do compositor em shows que aconteceram entre 1973 e 1977. Os originais estavam em K7s gravados direto da mesa de som dessas apresentações e foram compiladas pelo pesquisador Marcelo Fróes, que lança seu selo Discobertas com distribuição da Coqueiro Verde.

Bem recuperadas mas preservando as imperfeições como microfonias e ruídos, o material é de grande valor histórico. Na época o artista se chamava Zé Ramalho da Paraíba, nome ou cartão de apresentação recuperado no disco.

No show de 1973, Zé Ramalho mostra o embrião de um de seus grandes sucessos. O já bem rodado Táxi lunar aparece com intenções mais roqueiras e longo solo de guitarra com cores progressivas de Josué (Oh yeah) – assinado assim mesmo. Segue com o Jacarepaguá blues, bom hit de seus shows na época.

Poucos anos antes de começar esse início de trabalho autoral, ainda na Paraíba, Zé Ramalho tocava em conjuntos de baile com repertório de Jovem Guarda. A partir de Roberto e Erasmo e sua turma, Zé Ramalho descobriu os acordes dos Rolling Stones, Pink Floyd e Bob Dylan. Há muito desse som no primeiro show. Paraíba hospitaleira tem cores de Stones, enquanto Terremotos é puro Beatles da primeira fase.

Essas influências deságuam no início de estrada, assim como suas influências nordestinas. Zé Ramalho apresenta no show O autor da natureza, de Zé Vicente da Paraíba, Passarinho do Norte e Bráulio Tavares. A música foi gravada, dois anos depois, por Marilia Pêra em seu ousado álbum experimental Feiticeira. Essa fase pouco conhecida do compositor está registrada oficialmente no raríssimo LP que dividiu com Lula Cortes em 1974.

Zé Ramalho só viria a lançar seu primeiro trabalho solo em 1977 com o grande sucesso Avôhai. Aqui a música aparece em registro do show Coletiva de música brasileira, um ano antes do sucesso. Em versão voz e violão com mais de dez minutos, anuncia: “Essa música que a gente vai tocar é muito especial pra mim, me permitam abusar disso”, conta explicando que foi feita em homenagem a seu avô que havia falecido três dias antes. “Eu nunca tive pai, então vovô fez o papel de avô, de pai e antes de morrer fez o papel de filho pra mim. Avôhai é uma palavra mágica, significa avô e pai”, explica. Cheio de atitude, esse show inclui bons textos, discursos e até corte de cabelo em cena.

A última faixa do álbum duplo dá a deixa para o primeiro capítulo da história discográfica oficial. Rio de Janeiro, janeiro de 1977. Zé Ramalho canta Admirável gado novo em versão voz e violão que já chega perto do arranjo que faria sucesso dois anos depois.

Como garimpador profissional, Marcelo Fróes fez questão de um caprichado encarte com crédito para os músicos, letras e texto explicativo. O lançamento é o primeiro título do bem vindo selo Discobertas, criado por Marcelo para lançar esse tipo de projeto. Os próximos lançamentos trazem gravações de Jackson do Pandeiro e Renato Russo.

Zé Ramalho, que esse ano comemora 40 anos de carreira, é aqui revelado em um capítulo inicial de sua trajetória artística. As faixas recuperadas são 23 peças dessa história. Tropicália, Jovem Guarda, rock britânico e sertão se misturam na formação do compositor. Antes que caísse na rede em arquivos soltos, está aí o retrato inicial do artista, devidamente organizado e bem apresentado.

Fonte

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Autor: Diego Camargo

Editor chefe do Progshine

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