Entrevista: Fabio Golfetti (Violeta De Outono)


Progshine: A banda surgiu em meados de 1984, como foi para uma banda com influências da era progressiva/psicodélica entrar em um território marcado pelo BRock? Havia espaço para o ‘underground’? Ou era justamente essa a questão? Por haver tantas banda de um único estilo a presença de uma banda com sonoridade diferente encantou o público?

Fabio: Acho que aconteceu mais ou menos assim: durante minha adolescência cresci na década de 70 ouvindo os clássicos do rock, os principais Led Zeppelin e Pink Floyd, seguidos de King CrimsonGenesisYes, Deep Puple, Black Sabbath, depois conheci Soft Machine e Gong e se abriu um leque infinito. Comecei a tocar com o Claudio Souza em 1983, nos conhecemos para fazer um som experimental e montamos o Ultimato, um grupo que misturava nossos gostos de rock, avant-garde, jazz e um pouco do cenário da época. Quando resolvemos fazer o Violeta, achamos que o ideal seria chamar algum músico, amigo, que gostasse das mesmas coisas – foi quando liguei para o Angelo Pastorello, amigo desde os 15 anos. A idéia era fazer um som baseado no que gostávamos e que tivesse uma formato mais acessível. Ensaiamos durante um ano antes de fazer o primeiro show no Teatro Lira Paulistana em São Paulo. Talvez o fato de termos tocado um som esquecido naquele momento tenha trazido à tona um gosto por clássicos como Beatles, Pink Floyd e Rolling Stones, que estava adormecido num publico em potencial.

Progshine: O primeiro EP da banda é uma raridade entre os colecionadores, qual foi a repercussão dele entre o público e como foi a gravação do primeiro LP pela Plug/BMG?

Fabio: O EP teve uma estratégia de “marketing” totalmente intuitiva. Os proprietários da loja Wop Bop, René Ferri e seu sócio Antonio Albuquerque, gostavam do som do Violeta (o René é um expert em música dos anos 60, singles, raridades) e nos propuseram gravar um single (3 músicas) para ser distribuído como um brinde para seus clientes. A Wop Bop naquele momento era, juntamente com a Baratos Afins, a loja de discos mais cultuada de São Paulo. Achamos muito legal a ideia e gravamos num estúdio muito simples de 8 canais, durante a Copa do Mundo de 1986. Logo que o disco saiu, as primeiras 1500 copias se esgotaram na primeira semana e isso chamou a atenção das gravadoras grandes. Rapidamente fizemos um contrato com a RCA (posteriormente BMG) e entramos no estúdio  em janeiro de 1987. O LP era a seqüência do EP, um repertório que vinha sendo tocado durante 2 anos. Repetimos a faixa Outono, pois essa seria música “trabalhada” em rádios….

Progshine: Nos últimos anos a banda fez uma série de shows em homenagem ao Pink Floyd fase Syd Barrett, isso foi uma decisão no momento da morte de Syd, ou somente um gatilho para uma ideia antiga?

Fabio: Foi uma triste coincidência. Em 2005 estávamos preocupados com a escassez de locais para se apresentar com nosso repertório próprio, então pensamos que fazer algum tributo viabilizaria tocar em casa menores, bares, clubes. Durante um ensaio, o Fernando (tecladista) sugeriu: o único tributo que o Violeta poderia fazer seria tocar Syd Barrett, já que desde o começa da carreira interpretamos Interstellar Overdrive, Astronomy Dominé, Flaming, Lucifer Sam, entre outras.
Achamos perfeito, pois, além de combinar com a sonoridade do Violeta, era uma maneira de lembrar um dos nossos grandes heróis, que estava em reclusão. O primeiro show desse tributo, em 19/01/2006, teve uma boa repercussão, e continuamos a tocar em vários locais até que teríamos um show agendado no nosso melhor palco, o Teatro do SESI em São Paulo. Preparamos a gravação de um DVD, áudio etc., para registar o show. Um semana antes da apresentação veio a notícia do falecimento do Syd Barrett. Todos ficamos tristes, os shows estavam sendo uma celebração da grande música que ele inventou, inclusive até se cogitava que ele poderia um dia aparecer tocando com o Floyd mais uma vez. Fizemos este show e paramos de fazer o tributo, em respeito.

Progshine: Já tive a oportunidade de ver a banda por duas vezes ao vivo, uma em 2006 no Morrison Rock Bar e a outra em 2007 um pouco antes do lançamento do álbum Volume 7 no Centro Cultural São Paulo, primeiro gostaria de dizer que a banda é muito simpática ao vivo e muito competente. Inclusive, no show do Centro Cultural, apesar de ser em homenagem a Syd Barret, muita gente pediu músicas do Violeta De Outono, depois de tanto tempo de estrada a base de fãs é tão fiel quanto no início?

Fabio: Sim, o que mantém o Violeta ativo e nos deu ânimo para continuar produzindo, gravando e tocando são os fãs fiéis que nos acompanham durante esses anos. Desde 1989 tive a ideia de criar uma caixa postal para manter contato mais próximo com os fãs, pois achava que já estávamos saindo da “grande mídia”. Mantivemos contato com nosso publico, muitos viraram nossos amigos e vários estão presentes em todos os shows. Isso é muito gratificante, esse respeito mútuo só fez frutificar nossas ideias. Conseguimos posteriormente desenvolver site na Internet (quase 10 anos após a primeira carta), criamos um arquivo de gravações, vídeos e outros itens. Isso só foi possível graças ao suporte e interesse do nosso público!

Progshine: O álbum mais recente da banda, o Volume 7 (2007), foi gravado ao vivo no Mosh Studios em São Paulo, com certeza é um dos álbuns mais concisos da banda, vocês acham que a gravação ao vivo propiciou essa sensação ou não é a primeira vez que a banda grava dessa maneira?

Fabio: Com o Volume 7, por incrível que pareça, voltamos às origens, “Seventh Brings Return” como diz o I Ching… Nosso primeiro LP foi gravado da mesma maneira que o Volume 7, ou seja, compusemos as músicas, ensaiamos durante meses e entramos no estúdio para tocar exatamente o que tocamos nos ensaios. Isso sempre foi muito melhor para uma banda de rock. A grande diferença no Volume 7 é o amadurecimento da banda e a contribuição do órgão Hammond por parte do Fernando Cardoso. O Violeta surgiu como um trio pois era impossível achar algum tecladista que não fosse new-wave naquele momento pós-punk…

Progshine: O Mailing da banda (do qual sou cadastrado há alguns anos) é um dos mais completos que eu já vi, e o site é sempre muito bem atualizado e muito bem diagramado com todas as novidades, shows e projetos envolvendo a banda, incluindo uma loja virtual contendo áudio e vídeo, é você Fábio que mantém o site? O quão importante é o mercado da internet nos dias atuais?

Fabio: Isso mesmo! Como sou arquiteto, paralelamente à música, sempre me dediquei à área visual. Quando surgiu a Internet por volta de 1995, achei que poderia continuar meu trabalho com o mailing da caixa postal através dos e-mails… é claro que só poderia dar certo, muitas das pessoas que escreviam estão cadastradas no site. A Internet é sem dúvida a maior parceira para a divulgação da música, não vejo problema com download, penso que hoje como a gravação está desmistificada, o artista se destaca tocando ao vivo, o que é um mundo muito promissor para a música viva.

Progshine: O álbum Volume 7 possui duas composições que não foram compostas pela banda, ‘Broken Legs’ e ‘Eyes Like Butterflies’ (as duas de Fernando Alge, baixista da Invisible Opera Co Of Tibet) e uma composição datada de 1993 chamada Pequenos Seres Errantes, poderiam comentar um pouco sobre as composições e como elas acabaram no novo álbum?

Fabio: As duas composições do Fernando Alge entraram no álbum pois durante os anos 90, numa das encarnações da Ópera Invisível (Invisible Opera Co of Tibet) o Alge nos presenteou com essas duas obras-primas. Além de nossa amizade, essas músicas representam um estilo que nos uniu chamado Canterbury Sound, criado pelas bandas Soft Machine e Caravan. Isso acabou sendo a desculpa para conceituar este álbum com esta sonoridade pré-progressiva. Originalmente essas músicas estão numa gravação do Invisible Opera de 1999 que permanece inédita. Já Pequenos Seres Errantes vem de uma variação de Isle of Everywhere do Gong, baseada numa progressão em terças menores que costumávamos tocar em jams nos ensaios.

Progshine: A formação atual (Fabio Golfetti – voz e guitarras / Gabriel Costa – baixo / Claudio Souza – bateria / Fernando Cardoso – teclados) está há quanto tempo junta? Vocês acham que a amizade é fundamental para que a banda soe coesa como no disco mais recente Volume 7 (2007)?

Fabio: O Fernando entrou para o Violeta em junho de 2005 e o Gabriel em outubro do mesmo ano. Eles já se conheciam pois também tocam em outros projetos, sendo o principal o CompaCta Triô. O atual momento da banda é muito favorável e promissor, estamos numa mesma sintonia, o que torna fácil tomar um rumo certo.
O que faz uma banda dar certo, segundo o Robert Fripp, são três itens: dinheiro, boa música e amizade. É preciso ter ao menos dois desses itens para a coisa funcionar….

Progshine: Na minha opinião, os shows em homenagem ao Pink Floyd de 67/68 (bem como o início dos anos 70) tiveram uma importância grandiosa na composição do novo álbum, vocês saberiam dizer o quanto desses shows foram absorvidos pela banda no momento dos ensaios/composições?

Fabio: Principalmente a atuação da sonoridade do órgão Hammond, mas o que definiu o som desse novo álbum foi compor no formato de canções e elaborar arranjos utilizando timbres básicos e clássicos. A ideia foi continuar o que inventamos em 1986, como diz o Gabriel, um som psicodélico envolto em sombras, à nossa moda. As contribuições do Fernando e do Gabriel ajudaram a levar o som para um caminho progressivo na linha das bandas de Canterbury, uma sutil combinação de psicodelia e jazz. Tenho uma grande admiração pelo som orgânico do Pink Floyd do início de carreira, as ideias do Syd Barrett sempre estarão presentes na minha maneira de tocar guitarra e na sonoridade do Violeta, e o glissando, que aprendi do Daevid Allen do Gong, veio das idéias do Syd.

Progshine: Qual é o equipamento da banda, tanto em palco quanto nas gravações?

Fabio: Guitarras Fender Telecaster e Stratocaster, amplificador Fender Hot Rod Deville,  pedais Fuzz Face, Big Muff, Cry Baby, Órgão Hammond, Caixa Leslie, Piano acústico, Piano elétrico Fender Rhodes, Mini-Moog, sintetizadores Yamanha, baixos Fender Jazz Bass e Precision Bass, Amplificador Ampeg SVT, bateria Yamanha 9000 e Stage Custom, pratos Paiste, Zildjian, etc etc etc

Progshine: Primeiramente gostaria de agradecer imensamente pelo tempo dispensado para a entrevista, e se quiserem deixar um último recado, estejam à vontade!

Fabio: Agradeço em nome do Violeta De Outono pelo apoio do Progshine e pela oportunidade de estar aqui divulgando nossa música ao lado de outros grandes nomes do rock progressivo-psicodélico brasileiro. Parabéns pelo site!

Site
Myspace
Compre os CDS da banda AQUI ou AQUI

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Autor: Diego Camargo

Editor chefe do Progshine

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