Matéria: Discografia Comentada Pink Floyd – Parte I


Por Mairon Machado
Originalmente publicado na Consultoria Do Rock

Um dos principais nomes do rock progressivo em todos os tempos, o Pink Floyd consolidou-se na década de 70 graças a discos seminais e únicos na história do rock. Apesar do enorme sucesso, a discografia dos ingleses não é tão vasta quanto o número de discos que vendeu. No total, são treze álbuns de estúdio e apenas dois álbuns ao vivo, além de participações em trilhas sonoras e diversas coletâneas.

Nessa primeira parte, vamos tratar dos discos que o grupo lançou entre 1967 e 1972, antes de estourar no mundo com o clássico The Dark Side of the Moon (1973).

The Piper At The Gates Of Dawn (1967)

A estreia do Pink Floyd é uma das principais obras do psicodelismo londrino na década de 60. Desconhecidos mundialmente, mas famosos no clube UFO, Roger Waters (baixo, voz), Rick Wright (teclados, voz) e Nick Mason (bateria) são comandados por um ser de outro planeta, chamado Syd Barrett (guitarra, vocais), em um álbum difícil e ao mesmo tempo encantador.

As viagens lisérgicas da cabeça de Barrett são colocadas para o ouvinte através de ‘Interstellar Overdrive’, um longo improviso na guitarra do líder Syd, com os demais instrumentos acompanhando a insana viagem do guitarrista de forma soberba, ‘Scarecrow’ e seus barulhos percussivos, e ‘Pow R. Toc H.’, uma estranha mistura de gritos, barulhos e um ritmo levemente jazzístico. Os teclados e a participação de Waters ficam escondidos através do gênio dominante de Barrett, que se destaca nas canções mais simples. ‘Lucifer Sam’ e seu ritmo inspirado nas trilhas dos filmes de James Bond, ‘Flaming’ e sua leveza, as engraçadas ‘The Gnome’ e ‘Bike’, ‘Chapter 24’ e as viajantes notas de órgão que acompanham a melodia vocal de Barrett, mostram um líder também insano nos vocais, contrastando com a leveza de ‘Matilda Mother’, na qual Wright aparece de forma mais destacada, assim como os bonitos arranjos vocais.

O grande destaque fica por conta de ‘Astronomy Domine’, uma maravilhosa peça musical, sobrepondo palavras enquanto uma guitarra nervosa acompanha sua letra, e ‘Take Up Thy Stethoscope And Walk’, uma versão curta dos lisérgicos solos de Barrett, que mostra que apesar de sua loucura, era um grande guitarrista.

Nos Estados Unidos, The Piper At The Gates Of Dawn (1967) teve ‘See Emily Play’ no lugar de ‘Astronomy Domine’, além da ausência de ‘Flaming’. Um disco sensacional, formado por canções curtas em sua maioria, ao mesmo tempo que é um raro registro de um Syd Barrett ainda lúcido com o que estava fazendo nos estúdios.

A Saucerful Of Secrets (1968)

Doente e sem condições psíquicas de entrar em um estúdio, Barrett foi despedido do grupo que criou, sendo substituído por David Gilmour.

É a partir desse disco que o Pink Floyd começa a guiar seu som para o progressivo, apesar de alguns flertes com a psicodelia, como são os casos de ‘Let There Be More Light’, destacando o baixo de Waters, ‘Corporal Clegg’ que conta com a participação de um pequeno naipe de metais formado por Waters e Wright, sendo a única canção do Floyd a trazer a voz de Mason, e ‘Jugband Blues’, o último registro do Pink Floyd com Barrrett nos vocais, e que mantém a linha de insanidades do guitarrista. Wright aparece com mais destaque nas belas ‘Remember A Day’ e ‘See-Saw’, mas o poder de Barrett acaba passando para as mão de Waters, um gênio que apresenta suas potencialidades em duas obras primas do cancioneiro floydiando: a poderosa maluquice da faixa-título, apresentando um lindo coral em seu encerramento, e a enigmática ‘Set The Controls For The Heart Of The Sun’, talvez a canção mais estranha que alguém já compôs na década de 60.

Um bom disco, não tão essencial quanto seu antecessor, mas fundamental para o Pink Floyd pisar com mais segurança no terreno do progressivo.

More (1969)

Pouco depois de participar da trilha sonora do filme Tonite Let’s All Make Love in London (1969), onde apresentam uma versão estendida para ‘Interstellar Overdrive’, o Pink Floyd foi convidado pelo cineasta Barbet Schroeder para criar a trilha do filme More. Nasce então a primeira trilha sonora totalmente composta pelo grupo para um longa metragem, e no geral, as canções (regravadas de forma diferente do que aparecem no filme) são um pouco confusas.

Os bons momentos ficam por conta das pauladas ‘The Nile Song’ e ‘Ibiza Bar’, nas quais o grupo está soando mais pesado do que nunca. Porém, com More (1969), o Pink Floyd passou a investir em sons de estúdio, como os pássaros em ‘Cirrus Minor”‘ as conversas de ‘A Spanish Piece’ além de baladas folk (‘Crying Song’, ‘Green Is The Colour’ e ‘Cymbaline’) que em nada acrescentam ao mundo progressivo que estava por vir, apesar de serem interessantes.

Para completar, canções instrumentais bem experimentais, como o free jazz de ‘Up The Kyber’,  as percussões de ‘Party Sequence’, a bizarra ‘Main Theme’, filha próxima de ‘A Saucerful Of Secrets’, assim como ‘Quicksilver’ e os blues embriagados de ‘More Blues’ e ‘Dramatic Theme’, mostrando os dotes do grupo também nesse estilo. Um álbum mediano no geral, mas que vale pelo peso de ‘The Nile Song’ e ‘Ibiza Bar’, bem como conhecer um pouco mais o lado experimental pós-psicodelia. No ano seguinte, o grupo participou de mais uma trilha, dessa vez do filme Zabriskie Point, com as canções ‘Heart Beat, Pig Meat’, ‘Crumbling Land’ e ‘Come In Number 51, Your Time Is Up’, sendo que dessa trilha participou também os grupos Kaleidoscope, Grateful Dead, The Youngbloods, entre outros.

Ummagumma (1969)

Longe da psicodelia, os britânicos inovam, lançando um disco duplo com dois álbuns distintos. O primeiro álbum é um disco ao vivo, gravado em Birmingham e Manchester durante o ano de 1969, trazendo apenas quatro canções recriadas a partir de suas versões originais. ‘Astronomy Domine’, ‘Set The Controls For The Heart Of The Sun’, ‘A Saucerful Of Secrets’ e ‘Careful With That Axe, Eugene’ ganharam mais força e improvisos do que as versões de estúdio, e são perfeitas para mostrar como o Pink Floyd era capaz de fazer longas viagens instrumentais sem soar pomposo ou chato.

Destaque maior para a linda versão de ‘A Saucerful Of Secrets’, na qual Gilmour faz as vozes do coral espetacularmente. O disco de estúdio apresenta trabalhos individuais de cada membro do grupo. Para muitos, um disco a ser desprezado, mas com o passar das audições, é impossível não ficar maravilhado com ‘Grantchester Meadows’ (Waters) e as três partes de ‘The Narrow Way’ (Gilmour).

Até mesmo passagens de ‘Sysyphus’ (Wright) e ‘The Grand Vizier’s Garden Party’ (Mason) são aceitáveis para um ouvido mais apurado na musicalidade Floydiana, mas o que é inexplicável é a presença de algo tão conturbado e vergonhoso chamado ‘Several Species Of Small Furry Animals Gathered Together In A Cave And Grooving With A Pict’, uma viagem sem pé-nem-cabeça saída da mente de Waters, misturando barulhos de animais e diversas vocalizações. Como fator adicional, é o único registro ao vivo oficial lançado pelo Pink Floyd com Waters no baixo.

Atom Heart Mother (1970)

Se a carreira do Pink Floyd precisava decolar, o Disco da Vaca foi o responsável por isso. Para mim, este é o melhor álbum já lançado pelo grupo, e não é somente pela suíte faixa-título, um épico que deve figurar entre as melhores canções de todos os tempos. Todo o trabalho é recheado de partes que vão construindo um álbum espetacular, viajante, alternando momentos de profunda viagem e outros de extrema empolgação.

Os não-fãs admiram a faixa ‘Summer ’68’, que inclusive chegou a ser tema de abertura do Jornal Nacional, bem como reconhecem a obra ‘If’ um dos mais belos momentos já criados por Waters para o Pink Floyd, assim como ‘Fat Old Sun’ é um dos mais belos momentos da carreira de Gilmour. Mas é inegável que ouvir ‘Alan’s Psychedelic Breakfast’ é um teste para a sua sanidade mental, com todos os fósforos acesos, conversas, passos, escarros e outros barulhos que permeiam uma incrível faixa instrumental, onde o trabalho de Gilmour e Wright é praticamente perfeito, através de mini solos individuais que intercalam as conversas de Alan durante seu café da manhã.

Voltando para a faixa-título, ela ocupa os mais de vinte e três minutos do Lado A, e é simplesmente fora de série. Contando com a participação especial da Abbey Road Session Pops Orchestra e da John Alddis Choir, é um épico instrumental que alterna entre o blues, a música clássica, temas e barulhos diversos mas muito, muito feeling. Alguns criticam a pomposidade da faixa, mas não negam que sua qualidade é inigualável dentro do rock progressivo. Essencial em qualquer coleção do estilo que se preze, e o primeiro disco de ouro do grupo nos Estados Unidos.


Relics
(1971)

Normalmente, o Discografias Comentadas não trata sobre coletâneas. Porém, esse é um caso especial. Relics (1971) foi lançado em maio de 1971 (com capas diferentes nos Estados Unidos e naAustrália) e apresenta raridades da época de Syd Barrett, que não saíram nas versões originais dos álbuns de estúdio, mas foram lançadas em singles de relativo sucesso. É o caso de ‘Arnold Layne’, ‘Paintbox’, ‘See Emily Play’ e ‘Julia Dream’, todas canções carregadas de psicodelia, predominando o hammond de Wright e a lisérgica guitarra de Barrett, além de interessantes arranjos vocais.

Essas canções foram gravadas entre 1966 e 1968, e poderiam facilmente ter entrado em The Piper At The Gates Of Dawn (1967) ou A Saucerful Of Secrets (1968). Somadas a essas, versões originais para ‘Interstellar Overdrive’, ‘Remember A Day’, ‘Bike’, ‘Cirrus Minor’ e ‘The Nile Song’, essas duas últimas as únicas a contarem com a participação de Gilmour, juntamente com ‘Careful With That Axe, Eugene’ em sua versão de estúdio, outra que também é novidade para a maioria dos fãs. Além destas, a inédita ‘Biding My Time’, um belíssimo jazz composto por Waters, e que surpreende ao ouvinte por fugir bastante da psicodelia que impera no álbum. Essencial aquisição, principalmente por trazer as clássicas (e raras) ‘Arnold Layne’ e ‘See Emily Play’.

Meddle (1971)

Outro discaço, tão essencial quanto o Disco da Vaca. Meddle (1971) (conhecido também como o Disco da Orelha) mantém as viagens proggers de seu antecessor, mas aterrisa em um terreno mais firme, sem soar tão pomposo e principalmente, colocando um pé no freio em termos das experimentações.

O lado A é dedicado para canções curtas, destacando ‘One These Days’, uma bela sequência para ‘Careful With That Axe, Eugene’, ‘Fearless’, trazendo a bela homenagem ao Liverpool, com a interpretação de ‘You’ll Never Walk Alone’ pelos torcedores do clube inglês, e o ótimo jazz de ‘San Tropez’. O maluco blues de ‘Seamus’ (trazendo os vocais feitos por um cachorro batizado pelo mesmo nome) e a leveza de ‘A Pillow Of Winds’, ajudam o álbum a manter-se no nível de Atom Heart Mother (1970), e é colocar a agulha no lado B para ouvir a suíte ‘Echoes’ que a casa cai. Talvez a melhor canção da carreira do Pink Floyd, ‘Echoes’ é, além de linda do início ao fim, uma canção tão simples de ser tocada que o quarteto fez questão de incluí-la em todos os set lists da banda até meados de 1977, quando Waters finalmente tomou as rédeas do grupo. E é essa simplicidade que faz dela uma obra perfeita.

As viagens do slide imitando os gritos agonizantes da baleia, as bonitas passagens de órgão e baixo, e Mason na sua melhor performance atrás dos bumbos, alavancam o status de Meddle (1971), colocando-o na segunda posição entre os melhores discos lançados pelo Pink Floyd, que alcançou platina dupla nos Estados Unidos. Nesse mesmo ano, o grupo fez um show para os fantasmas na cidade de Pompeia (Itália), soterrada pelas cinzas do vulcão Vesúvio em 79 d. C., gerando o filme Live At Pompeii (1972), também fundamental para se entender e admirar ainda mais essa que é a melhor fase do grupo, pré-sucesso.

Obscured By Clouds (1972)

Esta foi a última trilha sonora totalmente composta pelo Pink Floyd, dessa vez para o filme La Vallée, também de Barbet Schroeder. Em comparação com More (1969), é um disco bem mais simples, principalmente pela grande quantidade de canções instrumentais. Poucos são os momentos nos quais o ouvinte consegue se empolgar, e nesses casos cita-se o ótimo instrumental da faixa-título, a beleza de ‘Mudmen’, o peso de ‘When You’re In’ e os embalos sessentistas de ‘The Gold It’s In The…’. As baladas também estão presentes, através de ‘Wot’s… Uh The Deal?’, ‘Burning Bridges’ e a linda ‘Stay’.

Já ‘Childhood’s End’, ‘Free Four’ e ‘Absolutely Curtains’ exploram novos sons nos teclados de Wright e nos demais instrumentos, antecipando um pouco o que estava por vir nos discos futuros do grupo. É perceptível o crescimento e a importância de Wright nesse álbum, sendo que em Meddle (1971) o tecladista já havia conquistado um espaço importante como compositor. Um álbum que não soa como uma trilha sonora, mas como uma brincadeira de estúdio feita pelo grupo, e mesmo sendo discutido entre os fãs sobre sua qualidade, vale a pena como registro de um Pink Floyd solto, testando novos equipamentos e preparando-se para aquele que seria o divisor de águas em sua carreira. Esse foi mais um disco de ouro nos Estados Unidos.

Richard Wright, Syd Barret, Roger Waters e Nick Mason em 1967

Ainda nesse período, constam na discografia do Pink Floyd as coletânea A Nice Pair (1972), lançada em 1972 e que apresenta os dois primeiros álbuns na íntegra, sendo este um item para colecionadores, inclusive por sua raridade no mercado atual, e The Best Of Pink Floyd (1970), que traz como destaque as inéditas ‘Candy And Currant Bun’ e ‘It Would Be So Nice’.

Em 1973, The Dark Side Of The Moon (1973) chegou às lojas, e o Pink Floyd finalmente entrou no Hall dos principais nomes do progressivo e da música, como veremos semana que na segunda parte dessa Discografias Comentadas em homenagem ao grupo, dessa vez feita pelo colega Fernando Bueno.

A segunda parte já foi prublicada e pode ser lida AQUI.

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