Esparso Sideral: Esquinas Progressivas – Parte 2


O Clube Da Esquina em peso pronto para ação

Por Rafael Senra

Nessa parte, continuamos mapeando os momentos em que os integrantes do Clube Da Esquina (pra quem não conhece, um movimento musical mineiro capitaneado por Milton Nascimento) flertaram mais intensamente com o Rock Progressivo.

Beto Guedes

A influência do Progressivo no primeiro disco solo de Beto Guedes é notável. Apesar da produção crua de A Página Do Relâmpago Elétrico (1977), percebe-se que aquele jovem de voz anasalada tinha um potencial melódico impressionante, forjando um som que unia Choro, MPB, Progressivo e altas doses de Beatles. Vale ressaltar que sua banda de apoio no disco era praticamente o pessoal que formaria o 14 Bis. Em entrevistas, o tecladista Flávio Venturini comentou que, quando decidiu montar a banda, chamou o amigo montes-clarense Beto para ser o vocalista do grupo. Este, porém, preferiu prosseguir como artista solo – e em A Página Do Relâmpago Elétrico (1977), a união destes músicos nos permite imaginar o que aconteceria caso Guedes tivesse aceito o convite.

A influência Progressiva nesse disco é mais evidente em três músicas: a instrumental ‘Bandolim’, a viajandona ‘Chapéu De Sol’ (outra instrumental, com excelentes teclados moog de Flávio Venturini), e ‘Choveu’ (cheia de impressionantes mudanças de andamento). Entretanto, o trabalho todo evoca muito do gênero, principalmente no que concerne aos timbres.

Nos discos seguintes de Beto, a sonoridade Progressiva ficaria bem diluída, nunca mais aparecendo tão escancaradamente como em seu disco inicial (um parênteses: até Contos Da Lua Vaga (1981), seus discos soam simplesmente geniais. Apenas uma ou outra música dos discos posteriores se salva). A mesma coisa vale para seu colega clubista Lô Borges. Contudo, Flávio Venturini mergulharia mais profundamente na seara Progressiva, primeiro nos anos em que fez parte d’O Terço (banda da qual não comentaremos em detalhes, já que não faz parte diretamente do Clube da Esquina), e posteriormente ao montar o 14 Bis.

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O 14 Bis em 1979, na época do lançamento do seu 1º disco

Na minha opinião, não haveria 14 Bis sem que existisse antes O Terço, pois foi como integrantes dessa banda que os músicos Flávio Venturini e Sérgio Magrão cultivaram suas primeiras experiências profissionais mais relevantes. Além disso, assim como O Terço, o 14 Bis se propõe a misturar Rock e MPB – apesar de soarem bem mais radiofônicos.

O caráter pop da banda já lhes garantiu muitos detratores, mas não dá pra negar que seus arranjos remetem bastante ao progressivo, principalmente pelos teclados de Vermelho e pelas competentes guitarras de Cláudio Venturini. Em seu primeiro trabalho, 14 Bis (1979), as diversas influências não estão concentradas em temas específicos. Assim, pode-se ouvir algo de Progressivo na intro de ‘Perdido Em Abbey Road’ e de ‘Cinema Faroeste’, ou em trechos de ‘Ponta De Esperança’ e ‘Blue’. No geral, trata-se de um excelente album, apesar de soar levemente imaturo quando analisado em perspectiva. Era um grupo ainda buscando um estilo próprio.

II (1980), o disco seguinte, já representa um significativo passo na busca de uma marca registrada sonora. Na questão que nos interessa, ou seja, o Progressivo, temos aqui a instrumental ’14 Bis’, dividida em duas partes. Uma das preferidas dos fãs mais fiéis, é um belíssimo tema Prog cheio de mudanças, com uma melodia cativante. Mas foi em Espelho Das Águas (1981) que as fórmulas dos discos I e II deram um passo rumo ao amadurecimento e sofisticação. As duas faixas que fecham esse disco – ‘Vale Do Pavão’ e a faixa-título – são, para mim, simplesmente o melhor Progressivo já feito pela banda; o perfeito Progressivo Mineiro.

E se em Além Paraíso (1982) não há vestígios de progressividade, o disco posterior, Idade Da Luz (1983) entrega mais de oito minutos de um instrumental cheio de mudanças e solos em ‘As Quatro Estações De Vega’. Dois anos depois, A Nave Vai (1985) não apresentaria nem os grandes hits de outrora e nem os temas Progs (apesar de canções como ‘Nova Idade Média’ apresentarem muito do gênero). Em Sete (1987), a delicada ‘Cidade Perigosa’ soa levemente Progressiva, enquanto ‘Tema III’ (cujo título sugere uma continuação dos dois instrumentais do primeiro disco) é o 14 Bis em sua melhor forma.

Quatro Por Quatro (1993), já sem Flávio, é mais voltado para o pop, e o mesmo vale para Siga O Sol (1996). O mais recente disco deles, Outros Planos (2004), contém uma regravação de ‘Gente Do Interior’, canção do repertório d’O Terço.

Flavio Venturini

Podemos também encontrar pequenas doses de Prog nos discos solo de Flavio Venturini. Apesar de terem sido gravados em meados dos anos 80 (época em que o Progressivo era perseguido por dez entre dez críticos de música), seus primeiros registros apresentam alguns instrumentais bem afinados com o estilo. No seu disco de estréia, Nascente (1982), isso fica claro em temas como ‘Jardim Das Delícias’ e ‘Fantasia Barroca’, enquanto que no disco seguinte, Andarilho (1984), a dinâmica ‘Trilhas’ dá o tom (cujos fantásticos arranjos de violino, salvo engano, foram feitos pelo mago Marcus Viana). Nos trabalhos seguintes, porém, Flávio flertaria mais com música romântica, de contornos radiofônicos.

Assim, chegamos ao fim dessa jornada pelos rastros do Rock Progressivo nos trabalhos do Clube Da Esquina. Devemos nos lembrar de que praticamente todos os integrantes do movimento continuam em atividade, portanto essa lista não tem, e nem poderia ter, a pretensão de ser definitiva (até porque foi mais um trabalho feito quase que de memória, e muita coisa oportuna talvez tenha ficado de fora). Contudo, com exceção das promessas de Venturini de lançar um disco instrumental, parece improvável que alguns desses músicos mineiros possa fazer algum trabalho mais voltado para o Rock Progressivo. Bem, espero que eu esteja errado nesse caso!

Leia novamente a Parte 1 AQUI.

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