Esparso Sideral: Os Dois Lados Da Lua – Roger Waters & David Gilmour


David Gilmour & Roger Waters

Por Rafael Senra

Dentre os fãs de Pink Floyd, existe um debate nada discreto que, vez ou outra, dá as caras em bate-papos e conversas de boteco: quem teria feito mais para a música e a lenda da banda; Gilmour ou Waters?

Graças ao primeiro, o Floyd se tornou uma banda reconhecível por quase qualquer ser humano que tenha um mínimo interesse em música. Um sujeito que praticamente fundou uma “escola” sonora, um modo único de tocar que é dos mais copiados pelos guitarristas. Por outro lado, a loucura obsessiva do segundo deu alma aos monolitos que se tornaram The Dark Side Of The Moon (1973), Animals (1977) e The Wall (1979). Foi o baixista quem introduziu um coração pulsante no bolo de acordes e harmonias tecidos por Gilmour e Wright (não nos esqueçamos do saudoso e brilhante tecladista), através de suas letras e idéias.

Minha dúvida é se esses dois cidadãos teriam chegado no seus confortáveis pedestais de respeito e admiração pública caso não unissem forças (e mais uma vez, não nos esqueçamos da contribuição de Rick Right, além de Nick Mason – este em um nível aparentemente menor). A forma e o conteúdo, o som e o conceito, música e letra. Dois gigantes em suas maneiras peculiares de ver o mundo e de traduzí-lo em arte.

O Pink Floyd no começo dos anos 70: Richard Wright, Roger Waters, Nick Mason & David Gilmour

Para entender o astro-dominante-floyd, é necessário que olhemos para o lado negro de sua lua. Recorto aqui dois instantes da carreira de Gilmour e Waters em que suas deficiências criativas parecem mais evidentes, e não digo isso querendo diminuir vida e obra de nenhum deles. Lembrem-se de que, assim como Aquiles, eles tem um calcanhar, e esta parte da anatomia costuma dizer muito sobre nossos heróis.

No caso de Waters, a despeito de sua magnitude como compositor e idealizador, sua musicalidade simplória e áspera veio a tona no documentário Classic Albuns – The Dark Side Of The Moon (2003); mais especificamente quando são exibidas as demos de canções como ‘Time’ ou ‘Money’. Nota-se ali como que rascunhos, idéias em potencial, que precisavam de um polimento sonoro drástico. O resultado, alcançado pelo empreendimento coletivo que era o Pink Floyd, entrou pra história – mas percebe-se a carência audível do ponto de partida.

Um dos pontos mais críticos de Waters diz respeito a sua voz. Apesar de ter uma considerável potência vocal (vide faixas como ‘Run Like Hell’ para comprovar), ele nunca teve o necessário para se tornar um frontman do Floyd. Seu peculiar timbre de voz até funciona em algumas faixas, mas fica longe do brilho e da maciez da voz de Gilmour. Além disso, nunca foi um instrumentista hábil, executando linhas de baixo que sempre ficaram (merecidamente) em segundo plano.

Gilmour, por sua vez, deixa transparecer sua pouca habilidade textual e conceitual em seu primeiro disco solo, David Gilmour (1978). É, claro, um grande trabalho, mas falta a substância por detrás da sonoridade. As letras são pífias, e servem apenas para ancorar uma óbvia ânsia em depurar harmonias e solos (muito bons, diga-se de passagem).

David Gilmour & Roger Waters por volta de 1977, pouco tempo depois o mesmo abraço não aconteceria por décadas…

Se o Pink Floyd passava por uma crise pessoal quando Roger Waters deixou a banda, o mesmo não pode se dizer da parte musical. As paranóias do baixista renderam o polvo intermidiático de The Wall – um disco duplo, com uma turnê repleta de impressionantes nuances visuais, e um notável filme que se tornou ainda mais especial pela competente direção de Alan Parker, além das animações delirantes de Gerald Scarfe. E canções como ‘Confortably Numb’ mostram um David Gilmour perfeito em seus vocais e solos.

Contudo, os dois momentos em que o Floyd emergiu na década de 80 mostram bem a falta que um fez para o outro. Primeiro foi The Final Cut (1983), capitaneado por Waters, que conceitualmente repete a fórmula de The Wall, porém sem a magnitude sonora do disco anterior. Anos depois, o dinossauro ressussitaria com A Momentary Lapse Of Reason (1987), dessa vez liderado por Gilmour, realizando um pastiche das receitas harmônicas feitas pela própria banda em seus anos “dourados”. O resultado foi um gigante sem direção, tombado pelo excesso de produção. (É sempre bom lembrar de que a coisa aqui funciona como os filmes de Woody Allen: mesmo os ruins são bons. Alguns fãs da banda tem um desses dois trabalhos como seus preferidos, e, de fato, ambos tem seus méritos. Mas parece haver certo consenso de que são momentos menores na discografia do Floyd).

… até 2011, quando a turnê de Roger Waters, The Wall Live, trouxe os dois juntos em uma mesma foto novamente.

Nos anos seguintes, os dois “gênios” trataram de improvisar saídas para seus pontos frágeis. Um outro gênio da guitarra, Eric Clapton, auxiliou Waters em seu primeiro disco solo, em The Pros And Cons Of Hitch Hiking (1984), e anos mais tarde, o baixista se arriscaria no intrincado exercício de compor uma ópera, Ça Ira (2005), por sinal muito elogiada pela crítica. Gilmour, por sua vez, veria em sua esposa, a escritora e jornalista Polly Samson, a pessoa capaz de sedimentar as letras e conceitos em seus trabalhos. O bem sucedido The Division Bell (1994), ainda sob a batuta do Pink Floyd, tratava de falhas na comunicação, e Polly co-escreveu quase todas as letras. O mesmo se deu em seu terceiro disco solo, On And Island (2006), que conseguiu aliar uma sutil e brilhante produção sonora com o “conceito” (aqui bem entre aspas) de maturidade, introspecção e memórias da juventude.

A despeito da calmaria que cerca David Gilmour e do anúncio de aposentadoria feito por Roger Waters, ambos apresentaram bons trabalhos nos anos 2000, todos consagrados por crítica e público (apesar de que numa indústria musical criativa e financeiramente tensa como a atual, essa receptividade não poderia ser muito diferente). As tensões pessoais parecem ser coisa do passado, e seu legado continua relevante (vide os fatos de que a turnê “The Wall” de Waters foi a mais rentável de 2012, e a banda foi uma das homenageadas na abertura das Olimpíadas de Londres).

 

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