Esparso Sideral: King Crimson – Na Corte Da Desconstrução


Por Rafael Senra

Eu tenho uma teoria sobre o King Crimson, que se fundamenta na seguinte premissa: Robert Fripp e companhia lançaram um influente capítulo do progressivo com o exemplar In The Court Of Crimson King (1969); e nos anos seguintes trataram de desconstruir a pedra fundamental erigida por eles mesmos.

Dita assim, a teoria parece pretensiosa ou maluca, mas o objetivo do presente ensaio é justamente o de me explicar. Comecemos então pelo que eu não vou falar: ou seja, isso não é uma resenha sobre o álbum de estréia do Crimson, e sim sobre o que ele significa – seja para a carreira da banda, para o gênero progressivo, e além; porque suas influências vão além.

A distopia presente nesse disco antecede diversos trabalhos dos anos 70 que tentaram dar respostas menos animadoras para o flower power e as utopias hippies. A exaltação dos anos 60 deu lugar a paranóia dos anos 70: as letras soturnas da estréia do Genesis em Tresspass (1970),  a densidade por vezes depressiva do Van Der Graaf Generator de Pawn Hearts (1971), o experimentalismo insano do Krautrock, e porque não citar também o grande totem da loucura e alienação que foi The Dark Side Of The Moon (1973). Isso pra citar só o cenário progressivo, deixando de lado (mas já citando aqui) o disco de estréia do Black Sabbath, ou até eventos extramusicais, como o massacre de Altamont pelos motociclistas do Hells Angels.

Liricamente, pode-se dizer que o Crimson foi o contraponto ao que o Yes representaria dentro do gênero progressivo, com seu otimismo e suas quimeras pré-woodstock. Enquanto o quinteto liderado por Jon Anderson falava de uma “irmã pássaro azul, voando tão alto” em ‘Starship Trooper’, um jovem Greg Lake cantava sobre uma fantasmagórica e solitária “filha da lua”, que navega sobre o vento e brinca com fantasmas ao entardecer, em ‘Moonchild’. Duas musas bem diferentes. (que o diga Bill Bruford, que provavelmente cansado das profecias luminosas de Anderson e Squire, largou um Yes no auge para se tornar um fiel escudeiro de mr. Fripp).

Mas é a influência sonora de ‘The Court Of The Crimson King’ que talvez tenha ido mais longe que o alcance de suas letras esparsas e sombrias. As baterias jazzísticas de Michael Giles sugeriam direções abraçadas por quase todo o gênero progressivo. Os vocais graves e solenes de Greg Lake seriam identificáveis em “medalhões” como Camel e Pink Floyd. O lirismo dos sopros de Ian McDonald influenciariam o Genesis e mais da metade das bandas progressivas com flautas; isso pra não falar de sua performance com o teclado mellotron, encontrando ecos que vão de Rick Wright e Tony Banks a Mike Pinder.

Paradoxalmente, o lider do Crimson, Robert Fripp, é sempre o mais lembrado da banda, porém torna-se difícil rastrear sua influência em músicos progressivos – e, por influência, não me refiro a fazer shows sentado. Certamente as contribuições do inventor do Frippertronic foram (e são) muito a frente de seu tempo, constituindo uma das mais sólidas vanguardas dentro do gênero progressivo.

Muitos fãs acusam a banda de não ter produzido nenhum trabalho tão marcante quanto seu disco de estréia, e é aí que volto à minha teoria. Os trabalhos posteriores do Crimson, como In The Wake Of Poseidon (1970), Lizard (1970), ou Islands (1971) pareciam desmontar cada vez mais a excelência do primeiro trabalho, e isso não veio por acaso. A cada novo trabalho, a banda se desmantelava literalmente, com uma frequente troca de integrantes ao redor de um único remanescente, Fripp. Em 1972, ao reformular a banda, o guitarrista inaugura no Crimson uma pegada que, ao meu entender, prossegue ainda hoje.

Os temas se tornam cada vez mais raivosos e truncados, repletos de improvisos, dissonâncias, experimentações radicais, além dos timbres pesados das guitarras de Fripp, que se aproximavam cada vez mais do nascente heavy metal. Discos como Lark’s Tongues In Aspic (1973), Starless And Bible Black (1974) e Red (1974) eram pedradas sonoras difíceis de serem digeridas.

Contudo, os passos aparentemente insólitos do “Rei Escarlate” (tradução do nome da banda) devem ser analisados de um modo mais aprofundado. Sonoramente, o Crimson realizou o que outras artes e áreas do conhecimento vinham já discutindo e executando. Nessa mesma época, as ciências humanas se voltavam para a idéia de desconstrução, através de teóricos pós-estruturalistas como os filósofos Jacques Derrida, Michel Foucault, o psicanalista Jacques Lacan e o sociólogo Roland Barthes.

De fato, tudo que o progressivo construiu em seu curto auge se esfarelou com o surgimento do punk, mas Fripp e o Crimson já haviam iniciado o bombardeio antes. O curioso é constatar que o guitarrista atacava justamente a criatura que ele mesmo havia alimentado e ajudado a criar, nos idos de 1969, quando seu alvo de então eram as utopias hippies. Num momento posterior, o próprio progressivo tornou a camisa de força que deveria ser arrebentada.

Se há alguma lição que a carreira do Crimson exalte, talvez seja a de que experimentalismos gratuitos são como animais em fúria: cheios de energia, mas sem direção. Robert Fripp e seus acompanhantes escolhiam bem seus alvos, e executavam seus planos de desconstrução com uma audácia nem sempre encontrada em pretensiosas e alarmadas vanguardas de boutique. Só quem sabe erguer uma casa é capaz de saber quais as colunas fundamentais de sustentação que precisam ser quebradas. Da mesma forma, só mesmo o autor de monumentos como ‘Epitaph’ ou ’21st Century Schizoid Man’ poderia atacar a exata argamassa progressiva em seu âmago e excelência.

 

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