Esparso Sideral: Yes – Um Drama Progressivo


O Yes em 1978, na época do Tormato

Por Rafael Senra

Em 1978, época em que o vendaval punk enxugava os excessos da indústria musical, uma das maiores bandas de rock progressivo passava por maus momentos. Depois de um aclamado trabalho em 1977, comemorando a volta da sua formação clássica, o Yes tentava adaptar sua sonoridade para os novos tempos, o que resultou no fraco Tormato (1978).

Reza a lenda que Rick Wakeman, indignado com a arte de capa do estúdio Hipgnosis, teria atirado um tomate na imagem, e alguém do departamento visual decidiu incorporar o “acidente” no registro oficial. Fato ou não, tal episódio soa praticamente como uma metáfora do que o disco significou.

A banda não conseguia acertar o passo. Como um pai repreendendo seus filhos, Jon Anderson passava sermões do tipo “essa não é a banda com a qual eu sonhei um dia”! Chris Squire, Steve Howe e Alan White se enterravam nos bancos macios do estúdio Advision, sem forças para reagir. Os reclames do furioso líder chegaram apenas ao injuriado Wakeman, que acompanhou Jon para um porre no pub mais próximo. Ambos não voltariam tão cedo.

Yes, formação do Drama

Quem acompanha a carreira do Yes conhece bem sobre a primeira (e traumática) vez em que o vocalista abandonou a banda. Nesse ponto, as opiniões divergem: há quem ache que seu substituto, Trevor Horn, foi um canastrão incapaz de imprimir vida à essência da banda; outros consideram que Drama (1980) foi um grande disco, à altura das grandes obras que fizeram no passado.

É oportuno rememorar o episódio, uma vez que, em 2011, o Yes reativou sua mais injustiçada encarnação. Ao se verem sem tecladista e com um Jon Anderson adoentado, os mesmos Squire, Howe e White devem ter se olhado e pensado “ei, nós três já passamos por isso antes, não foi??”. A ocasião permitiu um retorno à formação do Yes de 1980, na busca de um desfecho menos, hã, dramático!

O Yes com Trevor Horn (de óculos)

O tecladista Geoff Downes e Horn seriam novamente reativados, mas o ex-vocalista embarcou sob novas condições. Ao longo dos anos, ele se converteu em um produtor de sucesso, e um dos motivos para abandonar o microfone foi a péssima recepção que teve em seu curto tempo no Yes. No documentário Yes Years (1991), ele disse ter tido pesadelos com o episódio durante vários anos. Assim, preferiu voltar apenas como produtor e consultor, e o cargo definitivo de vocalista ficou a cargo do novato Benoit David.

A julgar pela recepção dos fãs, o novo Fly From Here (2011) parece ser o mais elogiado trabalho da banda em cerca de 30 anos, o que mostra que aquela semente plantada no disco de 1980 foi finalmente compreendida. E isso não diz respeito apenas ao som: duas demos da época dos Buggles (1980/81) foram resgatadas, compondo a suíte ‘Fly From Here – parts I-V’. Ambas estão presentes (ao lado das versões originais de ‘I Am a Camera’) na versão de 2010 do disco Adventures In Modern Recording (1981), dos Buggles. As demos mostram o quanto as composições cresceram nas mãos do Yes – já é um exercício difícil ouvir as versões sem sentir falta das alucinantes guitarras de Steve Howe, por exemplo.

Yes?

Um magoado Jon Anderson disse que a sonoridade do single ‘We Can Fly’ lhe parecia “um pouco datada”, e ainda que ele tenha certa razão, tal fato não tira o brilho do trabalho. De fato, essa tal sonoridade talvez possa ser atribuída, acima de tudo, à contribuição do tecladista Geoff Downes. Os timbres de teclados que ele utiliza não escondem um toque familiar a “new wave” do início dos anos 80. Isso fica muito claro ao se ouvir os dois únicos (e fabulosos) discos dos Buggles, banda/duo de Downes e Horn. Seu album de estréia, The Age Of Plastic (1980), prenunciava já no título o que os anos 80 se tornariam. Como um fantasma dentro da máquina, o clipe do irônico single ‘Video Killed the Radio Star’ seria o primeiro video transmitido pela MTV, em 1 de agosto de 1981.

O Yes em 2012 com Jon Davidson (à direita)

Presentes no mesmo estúdio em que ‘The Age…’ foi gravado, Squire, White e Howe provavelmente perceberam nos dois garotos a solução para todos os seus problemas: um vocalista e um tecladista, e ambos capazes de fazer a ponte estilística dos anos 70 para os emergentes anos 80. As peças que faltavam no quebra cabeça. Porém, dois detalhes fariam a coisa naufragar: a dose de “progressividade” que imprimiriam em canções como ‘Machine Messiah’ e ‘Into the Lens’ talvez fosse exagerada naquela era de três acordes e de ferocidade impostas pelo punk rock. O outro ponto diz respeito ao próprio Yes – um dinossauro sagrado da grandiloquência do gênero progressivo, que criou uma aura grande demais para ser profanada.

‘Drama’, contudo, foi um “fracasso” que valeu a pena. Só anos mais tarde, sem a sombra opressora dos anos 70, a magnitude desse disco pôde ser ressussitada e enfim fazer justiça à um número mais amplo de ouvintes.

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