Entrevista: Violeta De Outono


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Por Diego Camargo

O Violeta De Outono é sem sombra de dúvida o maior expoente do Rock Progressivo no Brasil.

Com 7 discos lançados, o grupo que nasceu nos anos 80 e que definiu seu som nos anos 2000, apresenta aos fãs o seu trabalho mais recente ‘Spaces’ que foi lançado no ano passado.

O Progshine teve mais uma vez a oportunidade de bater um papo com a banda (já entrevistamos o vocalista Fabio Golfetti em 2009, leia AQUI) e o resultado você confere abaixo em mais uma exclusiva entrevista que você só encontra no Progshine!

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Progshine – Muito se passou desde que a banda voltou a tocar no início dos anos 2000. Vocês poderiam resumir esses últimos 10 anos?

Fabio Golfetti – Exatamente há 10 anos foi lançado o álbum ‘Volume 7’, que foi um marco na história da banda, juntamente com o lançamento do primeiro LP em 1987, quando a banda era um trio. Com a entrada do Fernando Cardoso nos teclados e do Gabriel Costa em 2005, a banda se solidificou em uma nova direção, mais voltada para o som progressivo/psicodélico, o que resultou no álbum ‘Volume 7’. Considero um novo começo, praticamente uma nova banda, mas a ligação com o início se manteve, pois fizemos o disco com as mesmas técnicas e ideias do primeiro LP.

Fernando Cardoso – Se a gente pensar no tanto que fez durante dez anos, não pareceria muito, perto do que poderia ser para uma banda com a história do Violeta. Tento entender isso como um quociente de infiltração para uma banda progressiva (psicodélica, alternativa) que somos atualmente. Daí, muito esforço seria necessário para um resultado pouco melhor do que o atual. Os discos são muito espaçados (mas não é por isso que o novo chama se SPACES, ok?) em razão de uma demanda também esparsa de apresentações, o que faz com que a banda se envolva em outras atividades e não se concentre exclusivamente nela, o que eu acho realmente uma pena.

José Luiz Dinola – Entrei na banda em 2011, quando as músicas do ‘Espectro’ já estavam adiantadas com relação a composições e arranjos. De certa forma, foi difícil achar um equilíbrio entre meu estilo de tocar e a banda. Já em ‘Spaces’, o equilíbrio foi natural, pois participei das ideias de arranjos, além de, ao longo desses 5 anos, já ter tido tempo suficiente para me entrosar com a banda.

violeta-de-outono_2011_victoria-golfetti_20x13Progshine – E complementando essa primeira pergunta, como vocês veem a trilogia de ‘Volume 7’, ‘Espectro’ e ‘Spaces’? Vocês veem uma linha entre os 3 discos?

Fabio Golfetti – Quando lançamos o ‘Volume 7’ eu não visualizava uma trilogia, porém isso foi se delineando durante o processo do ‘Espectro’, o segundo desta fase que se desenvolveu a partir do ‘Volume 7’, uma continuidade e também um aprimoramento da linha que estamos seguindo. O álbum Spaces é a conclusão dessa trilogia, ele sintetiza os álbuns anteriores com um amadurecimento musical e técnico.

José Luiz – A Trilogia, em minha opinião, vem de uma ideia de que o Violeta nesses 3 trabalhos teria um conceito  mais progressivo com relação aos trabalhos anteriores.

Gabriel Costa – Bem, certamente há uma unidade nesses três discos referente à sonoridade da banda, em particular ao uso do órgão, e na maneira pela qual os arranjos foram concebidos.

Fernando – Em ‘Volume 7’, primeiramente, vejo uma mudança para um novo estilo, senão para um novo gênero. Ensaiávamos na ‘república’ do Butantã onde morei por anos com Gabriel Costa e Fred Barley, e foi este o trio que apoiou o Fabio Golfetti na elaboração do ‘Espectro’, quando o Claudio Souza saiu da banda. O Fred ainda deu lugar ao Dinola, o que deixou a banda mais flexível. Todos opinaram mais no trabalho, e o ‘Espectro’ ficou mais com cara de banda. Vejo um grande contraste entre os dois álbuns, mas como tocamos muito os dois em shows, talvez haja influência de ambos no ‘Spaces’.

Progshine – ‘Spaces’ é um disco, que na minha opinião, vai ainda mais fundo no som Canterbury, foi essa a intenção desde o início? Aliás desde o início da Trilogia?

Fabio – Em parte sim, porém essa ideia remonta os princípios da banda em 1985, eu sempre fiz um paralelo do primeiro Violeta de Outono com o primeiro álbum do Caravan, a sonoridade reverberada, os vocais etéreos. Quando o som do órgão foi introduzido, essa característica ficou bastante evidente, naturalmente. A capa do ‘Volume 7’ foi intencionalmente inspirada em todos as capas do Soft Machine (apesar de não ser essa a principal inspiração sonora). Você pode ver elementos das capas do Soft Machine I (fotos), Third (cores), Fourth (número 7 em marca d’água).

Fernando – Acho que as influências individuais pesam de forma variada em cada faixa. Eu não acho o ‘Spaces’ um disco tão canterburiano. O ‘Volume 7’ sim.

Gabriel – Eu, em particular, gosto muito das bandas de Canterbury, e de vez em quando essa influência transparece nas minhas linhas de baixo. Mas não foi a nossa intenção “fazer um disco Canterbury”, inclusive no início havia outras canções, que não chegaram a ser gravadas, que não tinham nada a ver com esse estilo. Decidimos deixá-las de lado em prol justamente da unidade do disco, e ficamos com as outras, que soavam bem quando juntas, soavam como um disco.

violeta-de-outono-2014Progshine – Como foi o processo de composição e gravação de ‘Spaces’? Houve alguma mudança pros discos anteriores?

Fabio – Mais ou menos o mesmo, assim que terminamos um álbum é hora de começar outro, porém nosso processo é mais longo devido às outras atividades que todos nós da banda temos. Neste último álbum, ‘Spaces’, o processo de composição passou por várias formas, desde uma criação praticamente coletiva, composta durante ensaios, que foi a faixa “Imagens”, até outra totalmente escrita e composta por um integrante da banda, “Cidade Extinta”, que praticamente foi arranjada para a sonoridade do quarteto. Outras composições são individuais, a banda desenvolveu arranjos.

Fernando – A mudança das instalações da banda, que eram na república do Butantã, para a casa do Dinola (e alternativamente em estúdio) e o fato de ensaiarmos pela manhã mudou bastante a rotina de trabalho. Eu, em particular, admito que fui bastante insistente com a banda na realização de temas complexos, que levaram tempo para ficar bem acabados, como a ‘lousa’, uma seção da “Cidade Extinta” com linhas nada convencionais, mesmo para a bateria. De outro lado, foram testados diversos arranjos para a maioria das músicas, mas em especial em “Imagens” e em “A Painter…”.

Gabriel – A primeira música a surgir foi “Imagens”, composta coletivamente durante ensaios. Essa música deu o tom do disco, e a partir daí o Fabio e o Fernando chegaram com as outras canções. Por fim, decidimos também gravar “Flowers On The Moon”, de Fernando Alge, também gravada por sua banda Dr. Fantástico.

José Luiz – Grande parte do processo de composição e arranjo do ‘Spaces’ foi feita em minha casa, regada a café (ou chá inglês) com bolachas maisena (risos). Compusemos em um clima mais acústico, para depois ensaiar o disco no estúdio em alto e bom som. Já no ‘Espectro’, os arranjos foram feitos no clima plugado. Com todas as qualidades pertinentes aos trabalhos anteriores, Spaces representa o amadurecimento do Violeta de Outono.

Progshine – O disco foi masterizado em Londres, existe um motivo específico para essa mudança, já que os outros discos foram masterizados no Brasil?

Fabio – Normalmente eu mesmo masterizo meus álbuns, mas como eu estava gravando o novo disco do Gong na Inglaterra um mês antes, estava em contato com o Andy Jackson, amigo da banda e um engenheiro de som premiado por ter gravado o Pink Floyd desde o álbum ‘A Momentary Lapse Of Reason’, passando por ‘Division Bell’ e ‘Pulse’. Aproveitei e pedi para ele fazer a master do ‘Spaces’ também, já que havíamos conversado bastante sobre masterização, e ele seria um engenheiro mais do que perfeito para masterizar um álbum do Violeta de Outono.

Fernando – O que posso dizer é que senti de fato o efeito da masterização neste disco. Ficou claro o contraste entre a mix e a master, como passando de uma visão 2D para 3D. Achei fabuloso!

José Luiz – Masterizar em Londres contribuiu muito para mostrar esse amadurecimento do Violeta, agregando enorme valor.

violeta-de-outono-2013Progshine – Faz alguns anos já que existe uma espécie de revival do Rock Progressivo, obviamente o gênero nunca vai voltar aos anos 70, mas nunca se gravou e ouviu tanto Progressivo. Vocês acompanham o que vem sendo lançado? Como vocês vêem o novo público?

Fabio – Eu acompanho sempre que possível, prefiro olhar para as bandas mais alternativas de várias vertentes, pois trazem novas ideias. O público vem crescendo, é diferente dos anos 1970, quando todo o público era “progressivo”, mas acredito que existe o público fiel e seguidores, e também sempre há uma nova geração redescobrindo o passado para fazer o presente.

Gabriel – Eu gosto de acompanhar o que vem sendo lançado, e vejo uma produção atual de grande qualidade nesse campo. Bandas como Arcpélago, Monstro Amigo, Caravela Escarlate e muitas outras atestam a popularidade atual desse gênero.

Fernando – Dos brasileiros, gosto muito do Caravela Escarlate e do Bombay Groovy, respectivamente dos tecladistas Ronaldo Rodrigues e Jimmy Pappon. Boto fé também nas bandas e músicos da antiga, como o Som Nosso de Cada Dia, Pedro Baldanza Trio, Casa das Máquinas, Quaterna Réquiem…

José Luiz – Vejo com otimismo o aumento do público. Pelo menos é uma parcela da população que deixa de ouvir porcarias. Mas ainda é muito pouco pela quantidade de músicos que desejam fazer o som progressivo. Há poucos lugares para se tocar som prog.

Progshine – Entrando nesse assunto, Fabio, você vem fazendo shows com o Gong há alguns anos e você é inclusive membro da banda agora, quão diferente é tentar conseguir shows no Brasil e lá no exterior, especialmente na Europa?

Fabio – Também existem dificuldades na Europa, eu vejo dois cenários, a Inglaterra e a Europa. A Inglaterra é diferente, existe um circuito de clubes bem conectados e isso faz com que as bandas consigam organizar tours frequentes nos mesmo locais anualmente. Também vejo o público inglês como um incentivador dos novos projetos das bandas. A Europa parece um pouco diferente, o público prefere ouvir as clássicas composições das bandas, o que nem sempre é possível (no caso do Gong, perdemos o Daevid e a Gilli), e a banda está se reinventando, mas alguns lugares preferem não apostar.

Progshine – Falando no Gong, todos os membros da banda tem projetos paralelos? Contem um pouco sobre eles.

Fabio – Sim, no meu caso, sempre desenvolvi meu projeto solo sob o nome de Invisible Opera Company of Tibet, que na verdade era o projeto paralelo do Daevid ao Gong. Desde que me juntei ao Gong, meu foco está somente dividido em Violeta e Gong, não dá tempo, nem tenho criatividade suficiente para fazer mais nada.

José Luiz – Atualmente estou para lançar um trabalho em vídeo de um solo de bateria na Pedra Grande, em Atibaia

Fernando – Atualmente: Os Três Guitarristas (Sérgio Hinds, Nuno Mindelis e Luis Carlini), Som Nosso de Cada Dia (re-reformulado), Edu Leal e a Conjuntura, e alguns trabalhos de música barroca e renascentista, notadamente o quarteto Ficta.

Gabriel – Eu atualmente toco também com o Dialeto (cujo próximo disco será constituído por temas de Béla Bartók), com o Dr. Fantástico (banda do já citado Fernando Alge), e de vez em quando com a banda instrumental Kaoll.

violeta-de-outono_2013Progshine – Eu sei que o disco novo acabou de sair, mas a banda diz que ‘Spaces’ fecha uma trilogia, e pro futuro, existem ideias já borbulhando? Talvez um disco conceitual?

Fernando – Talvez um disco nada conceitual! (muitos risos)

Gabriel – Talvez apenas um conceito, sem disco…

Fabio – Sim, sempre temos muitas ideias, mas iremos conversar nas próximas semanas, quando a banda volta a se reunir. Por enquanto, uma ideia é lançar uma compilação desta trilogia, com as faixas instrumentais e em inglês, como fez a PFM com os álbuns ‘Photos Of Ghosts’ e ‘The World Became The World’, para um possível lançamento internacional.

Progshine – Agora uma trívia. Quais seriam os seus top 10 discos Progressivos?

Fernando – Ordem apenas alfabética:
• Animals (Pink Floyd)
• Godbluff (Van der Graaf Generator)
• Hhaï (Magma)
• Illusions on a Double Dimple (Triumvirat)
• Octopus (Gentle Giant)
• Relayer (Yes)
• Signals (Rush)
• The Power to Believe (King Crimson)
• Tudo Foi Feito pelo Sol (Mutantes)
• Welcome back my friends… (ELP)

Fabio – Difícil, mas aqui vai meu último top ten…
Soft Machine – Third
Gong – Camembert Electrique
Van Der Graaf Generator – Pawn Hearts
Kevin Ayers – Joy Of A Toy
Pink Floyd – The Piper At The Gates Of Dawn
Led Zeppelin – Houses Of The Holy
Beatles – Revolver
King Crimson – Larks Tongues in Aspic
Robert Wyatt – Rock Bottom
Emerson Lake & Palmer – Brain Salad Surgery

Gabriel – Essas coisas variam muito com o tempo, mas sempre estarão nessa lista grupos como King Crimson, Genesis, Gong, Van der Graaf, Soft Machine, Som Nosso, Magma, Henry Cow, Mutantes, PFM, Hatfield & the North, National Health, etc.

Progshine – Gosto de deixar o espaço final pras bandas darem o recado que quiserem. É com vocês!

Fernando – Desejo a todos um ano maravilhoso! Que seja realmente PROGRESSIVO!

Gabriel – Eu gostaria de agradecer imensamente não apenas a você e ao Progshine, mas a todos que ouvem o Violeta de Outono, vão aos shows, etc. Gostaria também de dizer que, apesar de o cenário brasileiro e mundial atual não favorecer os músicos e os artistas em geral, é preciso perseverar.

José Luiz – Recado para o público em geral: parem de ouvir porcarias!

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Leia mais sobre o Violeta De Outono no Progshine

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Autor: Diego Camargo

Editor chefe do Progshine

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