Resenha: Rush – Clockwork Angels (2012)


Por Nathan

Artist: Rush
Disco: Clockwork Angels
Data de lançamento: 12 de Junho de 2012
Selo: Anthem / Roadrunner
Tempo total: 66:06
Disponível em: CD, LP & Digital

Resenha:

Já vi algumas músicas (ou até discos inteiros) serem inspiradas em livros, contos, ou poemas. Nesse grupo pode-se citar o caso do Camel, com seu clássico ‘The Snow Goose’. Ou até de bandas mais obscuras, como o The Old Man & The Sea.

Mas a outra direção (um disco se transformando em um livro) eu confesso não me recordar de ter visto.

O CAMINHO INVERSO

O Rush, com seus incontáveis anos de estrada, arranjou um fôlego sabe-se lá de onde para fazer algo incrível. Tão incrível que foi capaz de fazer o caminho inverso e transformar-se em um livro.

Soando mais pesado do que o habitual, voltados ao hard rock e quase ignorando suas origens no rock progressivo, os canadenses contam uma bela e triste história, narrada ao longo das suas doze faixas.
Pode-se dizer que Neil Peart, baterista e letrista, esteve mais inspirado do que nunca ao plantar essa ideia.

“O pessoal do Rush tem crédito infinito e poderiam estar de boa, aposentados, dando uns rolês de moto entre o Canadá e os Estados Unidos… E ainda assim decidiram nos brindar com outra obra grandiosa!”

NO MUNDO DE ALBION

‘Clockwork Angels’ conta a história do personagem Owen Hardy, que vive em um pacato vilarejo (Barrel Arbor), em um mundo (Albion) aonde tudo é rigorosamente controlado pelo Relojoeiro (um ser supostamente benevolente).

Cheio de sonhos e ambições, Owen parte para aventuras rumo à cidade grande.
Lá, ele deseja conhecer os Anjos Mecânicos (criaturas que dispensam sabedoria para as pessoas) e, quem sabe, poder conhecer o próprio Relojoeiro.

O intrigante é que, apesar desse desejo por mudanças e novos rumos, Owen Hardy é descrito como um cara feliz e satisfeito. É justamente essa característica da personagem que ganha destaque na contracapa do livro: “O melhor lugar para iniciar uma aventura é partir de uma vida sossegada e perfeita… Até que alguém se dá conta de que isso não é o bastante”.

Contracapa do livro, mostrando a caravana (transporte de Albion).

‘Clockwork Angels’ não se destaca pelo seu individual. Não há um grande hit ou uma música isoladamente marcante. O forte do álbum está no todo, no conjunto da obra.
É aquele tipo de trabalho que não pode ser apreciado em uma simples audição. Sua alta complexidade nas letras e enredos exige máxima atenção do ouvinte.

EMBARQUE NA CARAVANA

A abertura é com “Caravan”, e como sugere o nome, conta sobre o inexplicável desejo que Owen tem de partir (“A caravana reluz adiante/ Para o distante sonho da cidade/ Eu não consigo parar de pensar grande”). Até esse momento, Owen tem uma visão pura e romântica sobre o mundo que o cerca.

O romantismo começa a ser deixado de lado com “BU2B”. Nela, Owen começa a perceber que o mundo não é perfeito, mas ao mesmo tempo seus valores de justiça são mantidos e ressaltados (“Eu fui criado para acreditar/ Tudo é para o melhor/ Alguns serão recompensados”).
Ao mesmo tempo a onipresença do Relojoeiro começa a dar as caras (“Acredite no que é dito/ Até o último suspiro/ Enquanto o amado Relojoeiro/ Nos amará até a morte”).

Na terceira faixa, “Clockwork Angels”, é explicado o papel dos anjos mecânicos na sociedade.
Basicamente, o objetivo deles é trazer esperança e confiança ao povo. Em paralelo é mostrado trechos em que o Relojoeiro vai conversar (usando um disfarce) com Owen, e tenta convencê-lo a desistir da ideia de conhecer o mundo. A música termina com o Relojoeiro perguntando a Owen: “O que lhe falta?”. Não há resposta…

 

O que lhe falta? Você saberia responder?

HORA DA AÇÃO

Se não faltava nada para Owen, a partir de “The Anarchist” a barra começa a pesar para o seu lado.

É apresentado o Anarquista, o vilão da história. Inconformado por não ter sido recompensado como deveria, o Anarquista carrega um grande desejo de vingança em seu interior (“Eu sinto falta dos sorrisos e diamantes/ Sinto falta da felicidade e do amor/ Eu os invejo por tudo isso/ Eu nunca tive a minha parte”).

A vingança do Anarquista é concluída em “Carnies”. Uma emboscada é preparada, e uma bomba é disparada, destruindo tudo à sua volta e propagando o caos.
No meio da emboscada, Owen é visto com o detonador em suas mãos (“Uma bomba relógio na mão de um inocente/ A multidão move-se em sua direção com más intenções”). E nesse ponto ele se vê obrigado a fugir (“Como eu rezo para sair daqui/ Me leve para qualquer lugar/ Às vezes os anjos nos punem”).

É importante ressaltar que a noção de controle dos anjos mecânicos não é perdida. O protagonista continua buscando forças e justificativas nos seus valores de justiça, e no suposto controle dos anjos.

O AMOR É UMA DOR

Chegamos então ao meio da história, acompanhados por “Halo Effect”. Trata-se de um ponto mais reflexivo. O amor, até então, não havia sido abordado.
“Halo Effect” quebra um pouco a linearidade da novela e aborda o assunto.

Owen fala de uma maravilhosa dançarina que ele conheceu, e nela ele projeta a mulher ideal (por meio de um amor até certo ponto obsessivo).
No fim ele sofre com a rejeição e o desprezo da acrobata.

Em uma entrevista, o compositor Neil Peart foi questionado sobre o significado da expressão “halo effect” no contexto, que traduzido literalmente seria algo como “efeito radiante”.
Neil respondeu que “halo effect” é sobre o poder psicológico da beleza. Nós tendemos a projetar nas pessoas belas o que nós queremos acreditar sobre elas, e assim cegando-nos de sua verdadeira natureza.

De fato, “halo effect” é um termo bem comum na psicologia, e pode ser utilizado nas mais diversas áreas (além da afetiva), como na publicidade e economia.

“Halo effect”… Quem nunca foi vítima?

FUJAM PARA AS COLINAS O OESTE

Bem, retornando ao conto de Albion… Afinal, isso não é um álbum romântico.

Após a emboscada e a explosão, Owen foge rumo ao oeste, para uma região em que os trens não conseguem alcançar.
Eis que surge “Seven Cities Of Gold”. Visualizando monumentos sobrenaturais e um frio extremo, o protagonista encontra as cidades que apareciam em seus sonhos (“Sete cidades de ouro/ Histórias que incendiavam na minha imaginação”).

Apesar da beleza, o lugar também é descrito como hostil e perigoso. Trata-se de uma região cheia de oportunidades e problemas (“Um homem pode perder seu passado em um lugar como esse/ Um homem pode perder seu rumo em um lugar como esse”).

Trabalhando em uma cidade portuária, Owen sofre mais um grande golpe. O barco que ele tripulava é vítima de uma grande tempestade. E em “The Wreckers” é possível notar uma mudança em seus princípios.

No meio da tempestade eles visualizam uma grande luz surgindo da neblina. A tripulação, acreditando que se tratava de um porto, segue a luz para tentar atracar.
Na verdade era uma armadilha.

O barco bate em uma parede de recifes e é saqueado. A partir dessa armadilha, surgem os questionamentos (“Tudo o que eu sei é que às vezes você deve suspeitar/ Quando um milagre é bom demais para ser verdade”).
Todos morrem no acidente, exceto Owen.

É O FIM DA SAGA

A aventura basicamente se encerra por aqui. Agora, depois de ter visto tantas coisas boas e ruins, o personagem volta para um momento mais reflexivo.

Primeiramente ele olha para tudo o que fez (“Headlong Flight”), e afirma não se arrepender de suas escolhas (“Eu aprendi a lutar, aprendi a amar, aprendi a sentir/ Oh, como eu desejo viver tudo isso de novo”).

Logo depois (“BU2B2”), a nostalgia fica para trás e resta a consolidação de sua mudança em relação aos seus princípios e valores. Pode-se dizer que ele segue uma linha de raciocínio muito similar à do seu inimigo, o Anarquista. Assim como o antagonista, Owen questiona o equilíbrio e percebe que não teve, nem terá, a sua parte (“A minha crença me derrubou/ A vida vai de mal à pior/ Não há filosofia que me console/ Neste universo mecânico”).

Não há ninguém controlando o universo, nem mesmo o Relojoeiro.

A vida vai de mal a pior…

A VINGANÇA NUNCA É PLENA

Apesar de tudo indicar que Owen se transformaria em um cara vingativo e cruel, como o Anarquista, “Wish Them Well” mostra justamente o contrário.
Na essência, todos estão vivendo o seu próprio inferno, e a melhor resposta contra os espíritos amargos é se afastar deles e deseja-los sorte, nada mais (“As vítimas nunca aprenderão/ Mesmo os perdidos, só resta desistir”).

Veja, não é uma questão de compreendê-los (como faria um tolo), ou se vingar (como o Anarquista). É uma questão de desprezar, ir embora e seguir em frente.

Por fim, o disco e a história são encerrados de forma magistral com a faixa “The Garden”. Existe um jardim metafórico, regado pelos atos e atitudes das pessoas. As plantas e flores desse jardim são o amor e o respeito. No fim, é isso que importa. O tempo é cruel e todos envelhecerão (“O ponteiro voa enquanto você sonha, as horas passam e as células se vão/ O Relojoeiro mantém seus planos/ E as horas continuam passando”).

A única retribuição que você terá, será o amor e respeito que você conseguiu acumular em seu jardim (“A medida de uma vida é o amor e o respeito/ Tão difícil de ganhar e tão fácil de perder”).

É O TODO

Se ‘Clockwork Angels’ talvez sofra um pouco pela falta de uma única grande música capaz de fazer o álbum estourar, o Rush contorna a situação entregando uma obra em que o todo é muito maior do que a soma das partes, exatamente como deveria ser um trabalho conceitual.

E diferentemente de outras bandas que entram no piloto automático após tantos anos de carreira e discos consagrados, o Rush parece disposto a ser muito mais do que um cover de si mesmo.

Thank your stars you’re not that way; turn your back and walk away. Don’t even pause and ask them why; turn around and say goodbye.
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FICHA TÉCNICA:
Artista: Rush
Ano: 2012
Álbum: Clockwork Angels
Gênero: Hard Rock / Rock Progressivo
País: Canadá
Integrantes: Alex Lifeson (guitarra), Geddy Lee (vocal e baixo), Neil Peart (bateria).
MÚSICAS:
1 – Caravan
2 – BU2B
3 – Clockwork Angels
4 – The Anarchist
5 – Carnies
6 – Halo Effect
7 – Seven Cities of Gold
8 – The Wreckers
9 – Headlong Flight
10 – BU2B2
11 – Wish Them Well
12 – The Garden


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