Resenha: Steve Hackett – The Night Siren (2017)


Por Rafael Senra

Artist: Steve Hackett
Disco: The Night Siren
Data de lançamento: 24 de Março de 2017
Selo: InsideOut
Tempo total: 57:40
Disponível em: CD, LP & Digital

Resenha:

Mesmo que o rock progressivo seja um estilo de subvertentes bem ecléticas, indo desde artistas mais barrocos até os eletrônicos, ainda assim é incomum encontrar em discos prog instrumentos como charango, quena, duduk, cajon, tar, ou didgeridoo. Mas tanto no som quanto na temática lírica, o disco ‘The Night Siren’ (novo trabalho do guitarrista britânico Steve Hackett) se propõe a ser um espaço de integração e diálogo entre diferentes povos ao redor do mundo.

Desde que iniciou sua carreira solo, com o clássico ‘Voyage Of The Acolyte’, em 1975, Hackett nunca passa mais que dois a quatro anos sem lançar discos com material inédito. Mesmo agora, em seus 67 anos de idade, a fonte parece longe de secar. ‘The Night Siren’ é seu 21º disco de estúdio com músicas originais (se contarmos discos como os da série Genesis Revisited, de regravações, ou ‘Tribute’, podemos situar seu novo trabalho na posição 25). Não é exagero dizer que a longeva carreira do ex-integrante da formação clássica do Genesis é uma das mais profícuas da história do rock.

Geralmente, sua trajetória não é marcada por guinadas muito radicais, principalmente após os anos 2000. Algo que pode ser problematizado logo na primeira frase da nota oficial da gravadora InsideOut sobre ‘The Night Siren’, escrita por Malcolm Dome. O jornalista inglês afirma que “existem vários artistas experientes e célebres que permanecem fechados em seus estilos, e se recusam a sair de sua zona de conforto. Isso nunca pode ser dito de Steve Hackett”. A meu ver, essa afirmação não é assim tão procedente. Por exemplo, é possível detectar um fio condutor estético nos trabalhos mais recentes do guitarrista, seus três discos lançados depois de 2010. TNS poderia perfeitamente ser uma continuidade de ‘Wolflight’ (2015) (que também contava com diversos instrumentos étnicos), ou de ‘Beyond The Shrouded Horizon’ (2011).

Se voltarmos um pouco mais ainda no passado, foi nos anos 90 (a partir do disco ‘Darktown’, de 1999), que Hackett passou a lapidar sua sonoridade atual. Aspectos presentes desde seus primeiros discos – como a presença do violão de nylon alternando com as guitarras – são constantes. Mas outros elementos foram incorporados, o mais marcante deles provavelmente envolve o som da guitarra, que passou a ser mais brilhante e as vezes até mais pesado. Foi justamente em Darktown que Hackett passou a usar instrumentos como o sistema de sustain das guitarras Fernandes, adotados também por nomes como Paul Gilbert ou The Edge. Outros aspectos dignos de nota envolvem uma presença mais frequente das vocalizações graves e afinadas do próprio Steve, ou as baterias de maior destaque na mixagem (as vezes, o som das caixas lembra a sonoridade das baterias dos anos 80), e até uma pegada progressiva contemporânea, relativamente distante do verniz bucólico pós-Genesis de seus primeiros discos nos anos 70.

Assim, ‘The Night Siren’ permanece fiel à sonoridade que Hackett tem burilado e aperfeiçoado em sua carreira. A afirmação divulgada nos veículos de imprensa de que o guitarrista se enveredou por um disco marcado pela world music também não me parece tão verossímil quanto parece – ainda que, sim, o disco tenha vários momentos que possam soar bem distantes de clichês sonoros progressivos. De todo modo, essa afirmação não implica em demérito. Como em seus discos anteriores, trata-se de uma produção sonora de altíssimo nível, impecavelmente executada, e trazendo temas inspirados e ricos, algo que parece incomum em um artista de trajetória tão longa e que tem uma produção tão constante de material inédito.

No dia 10 de março, Steve lançou o primeiro clipe oficial do disco, “Behind The Smoke”, que é a faixa de abertura de ‘The Night Siren’. Musicalmente, este tema de sete minutos funciona como um resumo de todo o disco, com seus climas cinematográficos, instrumentos exóticos, solos de guitarra, enfim, uma síntese inspirada das dez faixas seguintes. Apesar da produção, o clipe tem alguns recursos de montagem computadorizados meio datados (lembra muito a abordagem visual usada no clipe de Wolflight, faixa-título e música de trabalho de seu disco anterior). Ele chama a atenção, contudo, pela temática, em que habitantes de países árabes como Síria ou Líbano lutam pelo direito básico às suas terras e suas vidas. Os personagens e os cenários oscilam entre representações mais tradicionais e modernas, evidenciando que o conflito naquela região é antigo mas ainda permanece vigente. A letra discute o problema dos refugiados de guerras e o terrorismo fundamentalista, abordando questões essenciais em tempos de Brexit, xenofobia e atentados em grandes centros europeus.

Na maior parte do disco, os temas tipicamente “hackettianos” são temperados por diversos e localizados momentos de sonoridade mais étnica. Por exemplo, “Martian Sea” tem curtos trechos pontuados por melodias regionais, mas a identidade geral da canção é puro AOR, talvez a mais comercial do disco, que chama a atenção pelo forte refrão. É um tema que atualiza um dos vários estilos que Hackett sempre explorou (como em “Hope I Don’t Wake” de seu disco de 1981 ‘Cured’, para ficar apenas em um de vários exemplos possíveis). Mesmo caso de “Anything But Love”, que começa com violão flamenco e cajon, e depois transmuta-se para um tema bastante radiofônico tanto na composição quanto na produção (e com um curto, porém belo solo de gaita feito pelo próprio Steve).

A terceira faixa, “Fifty Miles From The North Pole”, já se mostra bem mais plural em seus sete minutos, variando entre climas bastante distintos entre si. Assim como a seguinte, “El Niño”, uma instrumental curta, porém muito diversificada, com alguns fraseados de guitarra que lembram muito a faixa título de ‘Please Don’t Touch’ (1978). Seus climas de teclado e percussão bastante intensos fazem parecer que trata-se da trilha sonora de um filme sobre o fenômeno atmosférico que batiza a música. Esta foi recentemente divulgada no canal da Inside Out no You Tube, através de um vídeo que mostra Hackett e sua banda executando-a ao vivo (sem playback, porém em estúdio).

O romantismo de “Other Side Of The Wall” é a primeira faixa mais “genesiana” do disco, e poderia ter sido executada por sua antiga banda em discos como ‘Wind & Wuthering’ (1976). A letra veio de uma viagem que o guitarrista e sua esposa fizeram no sul de Londres, após observarem um muro de tijolos no meio de um jardim em Wimbledon e imaginarem uma história a la “Romeu e Julieta”, sobre dois amantes que não podiam ficar juntos.

A sétima faixa, “Inca Terra”, soa bem latino-americana até a metade de seus quase seis minutos, desembocando depois em uma pegada instrumental que lembra muito trechos de “Dancing With The Moonlight Knight”, faixa de abertura do clássico ‘Selling England By The Pound’ (1973). “In Another Life”, que conta com vocais de Hackett e de Amanda Lehmann, abre com uma tonalidade folk com reminiscências de artistas como CSNY (o que também não é novidade para ele, vide a bela parceria com Richie Havens em “How Can I”, ainda em 1978). Na segunda metade do tema, a banda quebra o clima acústico, e o guitarrista mostra sua sempre oportuna verve de solista irrepreensível.

“In The Skeleton Gallery” foi a primeira música de ‘The Night Siren’ a ter seu áudio divulgado oficialmente. Trata-se de uma canção repleta de diversos momentos climáticos, as vezes quebrados por outros mais intensos, e, além das excelentes guitarras, quem brilha nessa faixa é o saxofonista e flautista Rob Townsend, antigo integrante da banda de apoio de Hackett. Essa faixa emenda com West to East, cuja letra trata da paz entre os povos de todo o planeta, e cujo refrão cativante lembra muito a épica balada “Afterglow”, da última fase do Genesis com Steve (1977). Os solos de guitarra se alternam com violinos de fraseados árabes, tentando musicalmente fazer a costura que a letra suscita.

O disco se encerra com a introspectiva “The Gift”, uma faixa curta que, dada a sua beleza, poderia ter se prolongado mais. Trata-se de uma melodia com camas de teclados que lembram o Camel de Stationary Traveller, e destacada pelo solo de guitarra de timbre cristalino e minucioso, em que Steve Hackett revela sua maestria como intérprete das seis cordas.

Como é de praxe nos lançamentos mais recentes do músico inglês, temos aqui um disco inspirado e de alto nível. Para os apreciadores da boa música, é um privilégio acompanhar um veterano ainda tão motivado como Steve Hackett, sempre disposto a aprimorar e compartilhar suas produções artísticas em discos e turnês. O fato de ‘The Night Siren’ estar aquém da expectativa gerada pela assessoria do guitarrista (que tentou destacar bastante os elementos de world music) não desmerece o fato de que se trata de um trabalho impecável – que, no fim das contas, é o que realmente importa.

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FICHA TÉCNICA:
Artista: Steve Hackett
Ano: 2017
Álbum: The Night Siren
Gênero: Rock Progressivo, World Music
País: Inglaterra
MÚSICAS:
1. Behind The Smoke (6:57)
2. Martian Sea (4:40)
3. Fifty Miles From The North Pole (7:08)
4. El Niño (3:51)
5. Other Side Of The Wall (4:00)
6. Anything But Love (5:56)
7. Inca Terra (5:53)
8. In Another Life (6:07)
9. In The Skeleton Gallery (5:09)
10. West To East (5:14)
11. The Gift (2:45)


Compre o disco: CD / LPDigital

 

Steve Hackett links:
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