Matéria: Uma Introdução Ao Rock Progressivo Italiano – Final


Por Fernando Bueno
Originalmente publicado na Consultoria Do Rock

No decorrer dos textos anteriores (leia AQUI) eu comento que um dos entraves para que as bandas italianas fizessem mais sucesso é o fato de eles insistirem em sua língua natal. Claro que isso é uma bobagem, mas sabemos que ainda existem aqueles que não se interessam por música que não seja em inglês. Os músicos perceberam o obstáculo causado pelo idioma e acharam que se o alterassem para o inglês poderiam conquistar mais mercados e principalmente a Meca do Rock Progressivo, a Inglaterra.

Assim, as bandas italianas da época começaram a, primeiramente, fazer versões de seus lançamentos nas duas línguas. O Le Orme usou desse expediente desde os primeiros singles ainda em uma época que nem podemos classificar seu som como progressivo. Em 1967 o single para “Fiori e Colori” teve uma versão lançada pouco tempo depois como “Flowers and Colours”. No ano seguinte “Senti L’estate Che Torna” também foi lançada em single e sua versão em inglês chamou-se “Summer Comin’”. O exemplo mais conhecido do Le Orme foi a versão para o inglês de ‘Felona E Sorona’, clássico gravado em 1973, que teve sua versão traduzida para o inglês feita por Peter Hammil. O disco em inglês, agora chamado de ‘Felona And Sorona’, não obteve tanto sucesso já que tanto Aldo Tagliapietra não conseguiu repetir a mesma atuação do disco em italiano quanto Hammil não teve sucesso em transferir todos os significados das letras.

Temos vários outros exemplos. O Premiata Forneria Marconi fez de ‘Photos Of Ghost’ a versão inglesa de ‘Per Um Amico’ e o irmão inglês para ‘L’isola Di Niente’ foi ‘The World Became The World’. Aquele único disco autointitulado do Maxophone também teve sua versão o mesmo acontecendo com alguns álbuns de Franco Battiato.

A curiosidade é que o contrário também ocorreu, ou seja, bandas de outras nacionalidades também chegaram a gravar em italiano. Não álbuns completos, mas alguns singles como o “Il Tuo Diamante” (1969) dos ingleses do Procol Harum em uma versão latina para “Shine on Brightly”. O mesmo ocorreu com os gregos, então radicados na França, do Aphrodite’s Child que gravaram, também em 1969, o single “Lontano Dagli Occi”, que ainda tinha como lado B “Quando L’Amore Diventa Poesia”.

Como muitos que freqüentam esse blog, tenho o inglês como minha segunda língua e atualmente podemos fazer contato com praticamente o mundo todo com o idioma. Assim aprender um terceiro idioma é algo que talvez não seja tão necessário a não ser que você trabalhe em multinacionais estrangeiras que te incentivem (ou exijam) isso. Particularmente tenho muita vontade de aprender o italiano porque acho a sonoridade da língua muito agradável e também porque sou fã da história do país. Também gosto da melodia da língua muito agradável e me divirto com os nomes de diversas dessas bandas. Desse modo selecionei cinco discos legais gravados por bandas de nomes espirituosos que só o idioma italiano poderia ter. Lembrando que alguma bandas com nomes assim como o Premiata Forneria Marconi, o Banco Del Mutuo Soccorso, Bliglieto Per I’Inferno e Buon Vecchio Charlie já foram citados nas duas primeiras partes e não estarão presentes dessa vez.

De De Lind – Io Non So Da Dove Vengo E Non So Dove Mai Andrò, Uomo È Il Nome Che Mi Han Dato (1972)

Mais uma das bandas italianas de apenas um disco, algo mais do que comum como vocês podem ver na segunda parte dessa série de textos. Vocês devem ter percebido que meu critério de escolher pelo nome da banda nesse caso não foi utilizado (e logo na primeira vez), mas um álbum com um nome desses tinha que entrar já que o tema é justamente o idioma. Seu nome é baseado em uma coelhinha da Playboy do longínquo ano de 1967 e o título do álbum significa “Eu não sei de onde vim e não sei onde vou, homem é o nome que me deram”. O interessante do De De Lind é que, ao contrário das outras bandas que possuem os teclados como base de seu som, aqui são as guitarras que comandam, dando até um tom hard para o grupo. O tecladista/flautista Gilberto Trama acaba utilizando a flauta muito mais do que as teclas dando um clima folk ao som. O trecho final de “Paura Del Niente” só com a flauta é uma maravilha. Lembrando um pouco o modo que o Lucifer Was utiliza o instrumento, que é acompanhando os riffs da guitarra. Na abertura sinistra de “Fuga e Morte” utiliza-se de um tímpano, pouco comum no rock em geral, dando um peso interessante. Algumas faixas fogem um pouco do convencional como em “Paura Del Niente” porém acho que exatamente nessas músicas que encontramos o mais interessante do De De Lind.

Quella Vecchia Locanda – Quella Vecchia Locanda (1972)

É um praxe citar o Jethro Tull quando se ouve a flauta no rock. Em muitos casos a semelhança é apenas pelo uso de tal instrumento, mas aqui musicalmente também é adequada a comparação. O violino também é utilizado de uma maneira bem característica da banda como se pode notar na introdução de “Um Villaggio, Um’Illusione” em mais um exemplo de como a música clássica tem uma importância vital no progressivo italiano. O curioso é que o violinista do grupo é um estrangeiro, o americano Donald Lax. Outra característica da Velha Estalagem são as faixas mais curtas tornando a audição, principalmente as primeiras, muito mais fácil. Em “Realta” são as melodias vocais que saltam aos olhos, na verdade aos ouvidos. Já falei das flautas, das vozes e do violino e não poderia deixar de citar os sintetizadores que dão um ar mais moderno ao som do Quella Vecchia Locanda quando comparamos com outras da mesma época. Na faixa de abertura, na psicodélica “Il Cieco” e principalmente em “Dialogo” é onde isso se mostra mais evidente. Para fechar a lindíssima “Sogno, Risveglio E…”. Poderia ser uma peça de algum músico erudito dos séculos passado. Aliás, é capaz de muita gente achar isso mesmo ao ouvir sem saber do que se trata. São apenas dois discos, mas o Quella Vecchia Locanda pode se tornar a banda preferida do estilo para muitos.

Il Rovescio Della Medaglia – Contaminazione (1973)

Este foi o último disco que decidi que entraria nessa lista e tabém o que conheço há menos tempo. “Absent for this Consumed World” é uma pequena introdução para “Ora non Ricordo Piú”, que é quase uma antecipação da new wave que viria a ser praga alguns anos depois. O álbum foi gravado em conjunto com uma orquestra sinfônica e teve na entrada do tecladista Franco Di Sabbatino uma aproximação maior à música clássica, já que nos dois primeiros discos a banda se aproximava muito do que o Deep Purple fazia na época. Também tiveram a ajuda do compositor argentino Luiz Enriquez Bacalov para fazer Contaminazione e seu título é uma referência à “contaminação” que a música clássica sofreu com a convivência com o rock. E porque não dizer também o contrário? A parte musical também transmite essa mesma idéia que a parte lírica quer passar contando a história de um compositor fanático pela música de Bach. E é justamente da obra do gênio alemão que o Il Rovescio Della Medaglia que vem as inspirações para esse álbum. Porém tudo isso não impede um pouco de experimentalismo como ouvimos em “Scotland Machine”. Também foi lançado em uma versão em inglês em 1975, com intenções de angariar frutos no mercado externo, sob o nome de ‘Contamination’.

Locanda Delle Fate – Forse Le Lucciole Non si Amano Più (1977)

O nome do grupo significa algo como pousada das fadas, apesar de não ter encontrado a palavra fate no dicionário eu a traduzi como um plural de fata. O que o Locanda Delle Fate faz parece um resumo de tudo o que podemos encontrar no progressivo italiano como dá para perceber já nos primeiros momentos da instumental “A Volte Um Instante Di Quiete” com o piano fazendo miséria. A palavra resumo fica bem empregada, pois a banda surgiu já nos últimos anos da época de ouro dos italianos e por isso eles já tinham sido influenciados por diversos outros grupos, inclusive os medalhões. Na segunda música, a faixa título, ouvimos pela primeira vez a bela voz de Leonardo Sasso cantando com uma impostação característica dos italianos. O grupo tinha sete componentes com duas guitarras, teclados, bateria, piano, voz e baixo. Gravaram esse disco em 1977 e depois só voltou a se reunir em 1993 para gravar um disco ao vivo e em 1999 seu segundo álbum foi lançado. Até então eles somam três discos de estúdio e dois ao vivo. O relançamento em CD de muitos grupos, como o Locanda Delle Fate, na década de 90, acabou sendo bom para essas bandas e reaviveu muitas carreiras. É a minha banda preferida fora dos três grandes do prog italiano.

Il Bacio Della Medusa – Discesa Agl’Inferi D’um Giovane Amante (2008)

Não podia deixar de citar algo mais recente para mostrar que não foi só nos anos 70 que existiram bandas progressivas na Itália. Quem se acostumou a ouvir bandas como os também italianos do Rapshody fica esperando uma entrada épica e pesada após o início orquestrado, mas é a suave voz de Simone Cecchini que aparece logo após em “Preludio: Il Trapasso”. Com violino e instrumentos de sopro fazendo parte do line up do grupo o que o ouvinte pode esperar são bastantes inclusões desses instrumentos. Interessante também a quantidade de instrumentos em que os integrantes se arriscam. O já citado Cecchini também é responsável por bandolin, violão e saxofone, Eva Morelli além dos vários tipos de flautas também toca sax, Diego Petrini além da bateria e percurssão também toca órgão, piano e mellotron. Fecham o grupo Frederico Caprai, baixo, Simone Brozzetti, guitarra e Daniele Rinchi, no violino, que entrou pouco antes da gravação deste que é o segundo álbum da banda. Passagens românticas, quase bucólicas, entrelaçadas com outras de puro virtuosismo são freqüentes. Não são raras as vezes em que dois ou três instrumentos solam ao mesmo tempo. Se tivesse que citar uma banda da época de ouro para compará-los escolheria o Osanna.

Ficamos por aqui. Até a próxima!

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