Resenha: Riverside – Eye Of The Soundscape (2016)


Por Gustavo Souza Lopes
Originalmente publicado no Blog do Gusta

Uma coletânea divulgada erroneamente como álbum, que apela para o lado emocional dos fãs com os últimos registros gravados do falecido guitarrista Piotr Grudziński, Eye of the Soundscape pode ter diferentes significados para a carreira do Riverside. Duplo, somente com faixas instrumentais, pode assustar o ouvinte desavisado, ou aqueles que conhecem a carreira da banda/Mariusz Duda apenas através das versões usuais de estúdio. Para os que já conhecem, pouco é trazido de novo, como um resquício final da era em que o Riverside foi um quarteto, ou um preludio para um novo Riverside que pode jamais preencher esta lacuna.

O fim do Riverside como conhecemos

Para a banda Riverside infelizmente o ano de 2016 representou uma perda irreparável, um quarteto que se tornou um trio. Com a morte inesperada do guitarrista Piotr Grudziński, o qual conquistou os fãs da banda com sua guitarra emocionante e solos a serem equiparados com David Gilmour em “Confortably Numb”, o Riverside passou por um ano de dúvidas e decisões. Muitos acharam que seriam o seu fim, incluindo eu, com o coração apertado, mas na segunda metade do ano o vocalista e baixista Mariusz Duda anunciou que o Riverside seguiria como um trio, com um guitarrista (amigo da banda) convidado nas turnês. Isso significa que para os próximos álbuns de estúdio a guitarra ficará a cargo provavelmente de Mariusz Duda, que por sinal, é multi-instrumentista. Entretanto, isso pode significar um problema dependendo de como Mariusz for abordar as novas composições do Riverside.

A sonoridade dos álbuns solo de Mariusz, através do projeto Lunatic Soul, é caracterizada pela exploração de diversos instrumentos e pela ausência de guitarra. Com a morte de Piotr e sem um guitarrista, a banda atualmente com seis álbuns lançados entre 2003 e 2015, que se apoiam na beleza da guitarra entre suas principais características, pode sofrer uma mudança drástica na sonoridade convergindo para a visão de Mariusz, que aparentemente já começa a acontecer na compilação ‘Eye of the Soundscape’.

A sequência

Como mencionei anteriormente, ‘Eye of the Soundscape’ é uma coletânea divulgada erroneamente como algo novo. O álbum conta com apenas quatro faixas inéditas, sendo que as demais foram compiladas de edições especiais de álbuns de estúdio. Talvez por que nem todos os fãs tem conhecimento deste conteúdo bônus, muito do material de divulgação colocava-o como uma “coletânea disfarçada de álbum”. Lendo resenhas da prévia do álbum e muitos comentários no Facebook da banda, uma massa significativa de pessoas não conhecia este conteúdo, fato que tentarei considerar em minha análise.

São treze faixas instrumentais divididas em dois discos, montados de uma forma que não me agradou tanto quanto gostaria. Como o conteúdo dos álbuns antigos reflete a sonoridade da banda naquela época específica, a mistura das faixas novas com as antigas criou uma sequência inconstante. Talvez a escolha da banda tenha sido esta para colocar novas faixas entre faixas antigas, além de separar duas faixas inéditas por disco, entretanto, ao ouvir o álbum na sequência de lançamento das músicas, o conceito sonoro do álbum se tornou muito mais agradável e impactante. Abaixo segue a sequência que adotei para ouvi-lo, separado pelo ano de lançamento das músicas, mas obviamente sugiro que ouça na ordem proposta primeiro e depois tire sua conclusão:

(2007)
Rainbow Trip (2016 mix)
Rapid Eye Movement (2016 mix)
(2013)
Night Session – Part One
Night Session – Part Two
(2015)
Heavenland
Return
Aether
Machines
Promise
(2016)
Where the River Flows
Sleepwalkers
Shine
Eye of the Soundscape

Com esta adaptação na ordem das faixas, os conceitos sonoros explorados pela banda, pelo menos aos meus ouvidos, se tornaram mais fluidos ao longo dos cem minutos de audição. A ordem das últimas quatro faixas também foi fundamental para criar uma ideia de ápice e encerramento. Obviamente que esta é uma ordenação que só pode ser obtida no formato digital do álbum, e não seria possível no formato físico, uma vez que isso implicaria em separar o bloco de 2015, algo que tanto eu quanto a banda optou por não fazer, o que também pode ser um motivo para a banda ter escolhido a ordem que escolheu.

Para onde o rio flui

Falando das faixas antigas, se ouvidas em conjunto com os álbuns aos quais são bônus, é possível perceber resquícios sonoros que foram explorados ou mesmo reciclados no álbum em si. Os exemplos mais fáceis de identificar são a linha de baixo compartilhada entre “Rainbow Trip” e “Rainbow Box” e a linha de teclado tocada no início de “Machines” e as mesmas notas tocadas a partir de 2 minutos e 22 segundos em “Celebrity Touch”. A impressão que tenho é que estas faixas são experimentações sonoras que a banda fez para chegar à sonoridade escolhida das faixas que tocam nos álbuns referentes. São faixas instrumentais interessantes, mas como menciono, são experimentações, então não tem o mesmo impacto das faixas usadas no álbum principal.

As quatro faixas inéditas tem características em comum com a instrumentação de Mariusz Duda em seu projeto solo Lunatic Soul. Não que as demais não tenham, mas a impressão que fica é que as antigas tinham mais a cara do Riverside como um todo do que do Mariusz sozinho. Ilustrando o que é o Lunatic Soul em poucas linhas, sua sonoridade pode descrita como uma base de baixo e bateria com dezenas de camadas de sons, seja de teclado ou outros instrumentos, digitais ou físicos. O mesmo acontece com as quatro faixas inéditas de ‘Eye of the Soundscape’, com o teclado proeminente em relação a todo o resto. Pouco se ouve do falecido Piotr, o que decepciona um pouco, mas o pouco que se ouve acaba sendo uma despedida triste e melancólica.

“Where the River Flows” é uma construção complexa de 10 minutos que funciona como uma introdução ao álbum ou ao possível novo som do Riverside, numa sequência de adições e subtrações de camadas graduais, começando com sons ambiente mais leves, passando pelos sons mais intensos e terminando novamente leve, com uma harmonia criada pela maravilhosa voz de Mariusz. “Sleepwalkers” já apela para o lado mais sombrio da banda, um teclado mais eletrônico somado a um riff de guitarra limpo. “Shine” é o ponto alto das inéditas, uma composição mais etérea, profunda e emocionante. Os suspiros finais da guitarra de Piotrparecem estar aqui. A faixa é curta, como a vida do guitarrista. O conjunto de alusões sobre a sonoridade da música, a despedida de Piotr e até mesmo seu nome, soa como o fim, o que me deixa com um aperto no peito ao ouvi-la. Para mim, esta faixa representa o sol da capa do disco, para qual o rio flui, enquanto caminhamos sonâmbulos, assim como a banda, depois de tamanha perda. Por fim, independente da ordem escolhida para apreciar o álbum, a faixa título parece representar o luto, um rito de encerramento. Ela é lenta, com notas espaçadas, que fluem para o infinito e se apagam num horizonte sonoro. O fim do álbum, o fim do Riverside como um trio, o fim da belíssima guitarra de Piotr.

Concluindo

Depois de ouvi-lo na sequência que propus, o álbum se tornou uma experiência mais interessante, como uma retrospectiva. Como toda coletânea, era de se esperar que haveria um remix ou outro, mas nada muito diferente. Se não fosse pelas faixas inéditas, seria uma coletânea bem morna, que, como já mencionei, apela para o lado emocional dos fãs por conta do falecimento de Piotr. Não estou querendo dizer em entrelinhas que a banda está tentando tirar dinheiro dos fãs desta forma. Muito pelo contrário. Esta é uma homenagem aos últimos acordes originais que o músico gravou antes do repentino falecimento. Durante os meses de Abril e Setembro a banda ficou em luto, e estará eternamente apesar de estar se reerguendo.

Para mim, que já conhecia mais da metade das músicas, não foi um álbum marcante, nem mesmo uma coletânea marcante. São muitos minutos de ambientação musical, que para mim servem para propósitos como um momento relaxante ou para ouvir durante uma leitura, mas difícil ser um álbum para se parar tudo para ouvir. Com a sonoridade do Riverside neste álbum se aproximando ao Lunatic Soul, principalmente nas faixas inéditas, é torcer para que a herança sonora deixada por Piotr seja seguida no futuro.


Banda: Riverside
Álbum: Eye of the Soundscape
Gênero(s): Progressive Rock, Progressive Metal, Progressive Eletronic, Instrumental
Lançamento: 21 de Outubro de 2016
Duração: 102 minutos

Formação:
Mariusz Duda – vocais, baixo, guitarra acústica
Michał Łapaj – teclado
Piotr Kozieradzki – bateria
Piotr Grudziński† –  guitarra

Faixas:
CD1
1 
Where the River Flows
2 
Shine
3 
Rapid Eye Movement (2016 mix)*
4 
Night Session – Part One**
5 
Night Session – Part Two**
CD2
1 
Sleepwalkers
2 
Rainbow Trip (2016 mix)*
3 
Heavenland***
4 
Return***
5 
Aether***
6 
Machines***
7 
Promise***

8Eye of the Soundscape

* – bonus Rapid Eye Movement (2007)/EP Schizophrenic Prayer (2008)
** – bonus Shrine of New Generation Slaves (2013)
*** – bonus Love, Fear and the Time Machine (2015)

Compre o disco: CD / LPDigital

 

Ouça
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Autor: Gusta

Brasileiro, nascido em 89, escritor, roteirista, designer e outros blablablas

Um comentário em “Resenha: Riverside – Eye Of The Soundscape (2016)”

  1. Bom você ter mecionado esse lance de ser uma coletânea Gustavo. Eu tenho a discografia toda do Riverside, mas só uma edição especial, e justamente porque as edições especiais trazem esse som bem diferente do que era a banda. Não comprei esse Eye Of The Soundscape e nem tenho intenção de comprar (a não ser que eu ache bem barato aqui pelas lojas da Polônia). Mas eu acho válido a banda ter lançado esse disco nessa fase da carreira deles.

    Em tempo, o Mariusz já disse que a banda entra em estúdio lá pelo final do ano pra gravar um novo disco 🙂

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