Resenha: Steven Wilson – To The Bone (2017)


Por Rafael Senra

Artist: Steven Wilson
Disco: To The Bone
Data de lançamento: 18 de Agosto de 2017
Selo: Caroline International
Tempo total: 59:43
Disponível em: CD, LP & Digital

 

Ao comentar com amigos que iria resenhar o novo disco de Steven Wilson, To The Bone, a reação era sempre de desdém. “Mas porque você vai resenhar justo essa porcaria?”. Claro que cito aqui amigos fãs de rock progressivo e progmetal. Que, por sinal, não é o público alvo preferido de Wilson neste disco.

Afinal, em diversas entrevistas, as influências que o compositor e produtor cita em relação ao novo trabalho não pertencem ao universo progressivo: nomes como Kate Bush, Tears for Fears, Abba, Talk Talk… quem mais chega perto do prog é Peter Gabriel, cujo disco So foi mencionado também por Wilson.

Porém, se não dá para afirmar que os cânones do progressivo ou do metal estão por trás da nova empreitada do ex-Porcupine Tree, por outro lado é igualmente delicado dizer que se tratam de influências pop. Claro que estou considerando o significado do rótulo “pop” em 2017, numa era dominada por gente como Justin Bieber, Rihanna, Beyoncé…

Na verdade, Steven Wilson provavelmente percebeu que seria interessante ampliar as paletas já apresentadas ao longo de sua carreira de inúmeros projetos (como No Man, Blackfield, e o principal – atualmente em recesso – que é o Porcupine Tree). Vale lembrar que o artista tocou no Brasil em 2013, no teatro Bradesco (SP), em uma apresentação que, mesmo elogiada pelos presentes, teve público escasso. E isso na turnê daquele que é considerado o melhor disco de Wilson: ‘The Raven That Refused to Sing and Other Stories’, certamente um dos grandes discos progressivos lançados nesta década. É possível que esse tipo de recepção irregular o tenha influenciado a buscar por canções mais palatáveis em sua carreira solo.

O flerte de artistas progressivos com o pop não é novo. Mesmo os grandes dinossauros do gênero, como Yes, Pink Floyd e Genesis, por exemplo, tiveram faixa acessíveis mesmo em suas fases mais complexas. Outras bandas, como Marillion, até hoje tem a política de dividir seus discos entre faixas mais “difíceis” (quase sempre longas e repletas de trechos instrumentais) e outras mais radiofônicas.

Foi esse tipo de movimentação que me atraiu ao novo disco de Wilson – um artista que, ainda que digno de minha admiração, nunca foi presença cativa em meu playlist. Acredito que fazer um pop bem feito muitas vezes pode ser mais difícil que fazer uma faixa longa e progressiva. Sempre lembro de uma entrevista em que John Petrucci dizia que fazer músicas como o U2 é algo dificílimo, tanto quanto elaborar os temas de vinte minutos ou mais que caracterizaram a carreira do Dream Theater.

Dito isso, sigamos com ‘To The Bone’. A primeira faixa, de mesmo nome do disco, tem um toque forte do Tears for Fears: a introdução com gaita, percussão e bateria eletrônica de cara já lembrou bastante o disco ‘The Seeds of Love’. É curioso pensar que as longas passagens com solos de guitarra e mesmo a duração (de 6:42) dessa faixa não a caracterizam como aquilo que se chama de música pop. Mas, ao comparar com o tipo de
produção e letra de trabalhos anteriores de Wilson, nota-se de cara que há mais diálogos com artistas radiofônicos (pelo menos alguns de outras
épocas, quando a rádio era bem mais interessante).

“Nowhere Now” tem todas as qualidades de uma boa faixa de trabalho, e é perfeitamente possível imaginá-la como um sucesso de rádio, talvez nos anos 90, quando as músicas de acento comercial ainda lidavam com níveis de compressão mais baixos (hoje em dia, os discos mais tocados usam pelo menos o dobro de compressão que a aplicada em ‘To The Bone’).

“Pariah” é talvez a faixa mais acessível do disco, com uma melodia bem simples, que apresenta um dueto vocal cuja referência mais imediata seja a obra prima “Don’t Give Up”, cantada por Peter Gabriel (em seu disco ‘So’) e Kate Bush. Certamente ficará como a faixa mais lembrada do disco, ainda que soe um tanto previsível. O grande ouro aqui, a meu ver, é a presença da cantora Ninet Tayeb, com um timbre vocal e uma técnica realmente impressionantes.

“The Same Asylum as Before” me lembrou o Tears for Fears dos anos em que Roland Orzabal tomou conta da banda, gravando discos criticados (mas que acho geniais) como ‘Elemental’ e ‘Raoul and the Kings of Spain’. O motivo pelo qual situo “Asylum” nesse período dos TFF é que se tratam de discos com guitarras bem fortes puxando as canções – afinal, além de Orzabal ser guitarrista, os anos 90 viram a ascensão do peso grunge, na mesma medida em que toda a sonoridade da década anterior (auge das “tias fofinhas”) foi tida como pasteurizada e datada. Vale lembrar que Steven Wilson conseguiu certa notoriedade com o Porcupine Tree na mesma época do “Tears for Fears featuring Roland Orzabal”.

“Refuge” já apresenta um tipo de textura e introspecção que mostra o lado “kate bushiano” de Wilson. Funciona como um respiro para a intensidade de outras faixas, com nuances mais melódicas e sutis.

A faixa seguinte, “Permanating”, já quebra totalmente com esse clima, retomando a pegada pop – dessa vez bem mais radiofônica, sobretudo no piano que remete mais à ABBA do que ao Supertramp (não foi por falta de aviso de SW). Esta foi um dos singles do disco, e um dos aspectos curiosos foi assistir ao clipe no Youtube e, nos comentários, perceber vários fãs apontarem que era a primeira vez que viam Wilson sorrir. A letra da canção, claro, fala justamente de tentar segurar a felicidade de alguns raros momentos de êxtase na vida – mesmo que façamos isso através da lembrança destes momentos.

“Blank Tapes” é uma espécie de faixa de transição, simples, curta, e com alguma doçura. Ela é muito útil para criar um contraste com a faixa seguinte, “People who Eat Darkness”, tema que lembra a urgência e a tensão de um Stone Temple Pilots, porém com truques de produção e arranjos um pouco menos alinhados com a sujeira do grunge. Como várias letras de ‘To The Bone’, ela fala de terroristas e de toda a agenda de violência e medo que tem assolado o mundo moderno.

“Song of I” é uma faixa bem soturna, com muitos ecos de Depeche Mode e Nine Inch Nails, e que curiosamente saiu como um dos singles do disco (uma escolha no mínimo inusitada, pois, fosse para vender ‘To The Bone’ como algo comercial, “Nowhere Now” seria muito mais eficiente nesse sentido).

Logo que ouvi “Detonation”, senti cheiro de clássico. Não sei se será uma faixa que permanecerá para os fãs de Steven Wilson, mas confesso que a achei simplesmente sensacional. Sua letra fala mais uma vez da questão dos terroristas (dos homens bomba, especificamente), em um tema longo que pela primeira vez traz ao disco um sabor mais progressivo. A introdução eletrônica tem algo de ‘Kid A’, do Radiohead, preparando para um trecho melódico e climático que lembra os melhores momentos do projeto paralelo de Wilson, o No Man. Em seguida, explode em trechos de guitarras intensas, essas sim características do Porcupine ou sua carreira solo. Depois de algumas oscilações de cargas maiores e menores de intensidade, o tema permanece na mesma sequência repetida e acelerada de acordes, com mais e mais elementos elevando a dinâmica (a entrada da percussão e depois o riff do baixo são os principais, carregados de suingue).
Um longo e intenso solo de guitarra surge moendo tudo, incendiando a canção, até acabar repentinamente – como a explosão de um homem bomba.

“Song of Unborn” fecha o disco, e, como a própria letra diz, é uma música para os “não nascidos”, ou seja, para as crianças que virão. O cantor pergunta que mundo é esse que deixaremos aos que ainda irão nascer. Depois de um disco tão intenso nos arranjos e camadas sonoras, o tema final nos pega mais pelo emocional, sem muitos truques de produção. Um encerramento digno para o trabalho que marca interessante guinada na carreira solo de Steven Wilson.

Ainda que os fãs mais xiitas tenham reclamado, creio que para aqueles que vibram na mesma medida com um som mais tradicional tanto do pop quanto do progressivo, To The Bone pode talvez ser considerado o melhor disco de Wilson. É o meu caso, chegando ao ponto de me motivar para escrever enfim essa entusiasmada resenha.

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FICHA TÉCNICA:
Artista: Steven Wilson
Ano: 2017
Álbum: To The Bone
Gênero: Art Pop
País: England

MÚSICAS:
1. To The Bone 6:41
2. Nowhere Now 4:04
3. Pariah 4:46
4. The Same Asylum As Before 5:14
5. Refuge 6:44
6. Permanating 3:35
7. Blank Tapes 2:09
8. People Who Eat Darkness 6:03
9. Song Of I 5:22
10. Detonation 9:20
11. Song Of Unborn 5:56

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