Entrevista: Rikard Sjöblom (Beardfish, Gungfly, Big Big Train)


Por Mairon Machado
Originalmente publicado na Consultoria Do Rock

Tive a honra de entrevistar um dos meus grandes ídolos da atualidade. Em parceria com o site Progshine, através do meu amigo Diego Camargo, pude trocar uma ideia com nada mais nada menos que Rikard Sjöblom, eterno líder do Beardfish e atual Big Big Train e Gungfly. Em uma conversa bem humorada e muito humilde, Rikard contou-me sobre estes e outros projetos que está desenvolvendo atualmente, além de passear pela história do Beardfish. Uma alegria inenarrável ter conversado com Rikard. Confira abaixo a entrevista:

À FRENTE DO GUNGFLY

Olá Rikard. Antes de tudo, muito obrigado por conceder essa entrevista para os sites Progshine e Consultoria do Rock. Gostaria de começar falando sobre seus mais recentes projetos com o Gungfly e o Big Big Train. No último dia 20 de março, o álbum On Her Journey To The Sun foi disponibilizado para compra pre-order em seu facebook oficial, sendo o mesmo lançado em 19 de maio. Conte-nos um pouco sobre a ideia do projeto e o processo de gravação do mesmo.

Este não é um álbum conceitual, mas está trazendo temas recorrentes, e o principal é sobre uma mulher que foi deixada para trás quando seu amante fez um último sacrifício e protegeu um grupo de pessoas. Acho que está entre os atos mais corajosos que alguém pode fazer. Algumas vezes, quando alguém morre, ela torna-se quase intocável e você guarda a memória dela em alto nível, quase como um Sol. Então, eu decidi que quando este herói morreu, ele renasceu como um Sol, e daí o título On Her Journey to the Sun. Então, como a mulher aqui tratada é muito relacionada com os fatos que aconteceram com ela, em relação a morte de seu amante, isso faz este título mais uma jornada espiritual, e não física – ela está na sua jornada espiritual para o Sol. Buda foi escolhido como a face do Sol por causa de sua calma, sua expressão sóbria, alguém que está em paz.

Gravei o álbum indo e vindo, por cerca de um ano, mas o pico das sessões ocorreu no outono de 2016.

Trabalhando como poucos, você também tornou-se membro do grupo Big Big Train, a partir de 2014, grupo esse que para mim, ao lado do Beardfish, representa a nata do rock progressivo nesse milênio. Como surgiu o convite para você participar do grupo inglês?

Big Big Train não apresentava-se ao vivo haviam 17 anos, e estavam planejando fazer isso. Então eles estavam procurando por alguém que podia tocar teclados e guitarras, bem como fazer alguns vocais de apoio. Eu estava em turnê com o Beardfish, e o engenheiro de som da turnê era Rob Aubrey, que trabalhava muito próximo ao Big Big Train, e foi ele quem me recomendou. Depois disso, eu recebi um e-mail de Greg Spawton (n. r. guitarrista do Big Big Train) perguntando se eu estava interessado em participar de um projeto – eles estavam indo fazer uma sessão no Real World Studios, para gravar e filmar o processo inteiro e lançar isto como um blu ray – e eu fiquei honrado e disse sim prontamente. As sessões foram ótimas, e após elas, eles me convidaram para ingressar na banda em tempo completo, e eu disse sim.

Quais as principais influências que você conseguiu levar para a banda já para o álbum Folklore (2016)?

Bem, é difícil de falar. Acho que estou trazendo meu próprio estilo de tocar minha forma de compor em partes, é claro. Muitas vezes Greg ou David (Longdon) tem mais ou menos finalizadas as suas partes, mas a maioria das vezes eu adiciono um “toque de Sjöblom” nisto. Então, no último disco, Grimspound, eu co-escrevi “Meadowland” e “A Mead Hall in Winter” junto de Greg Spawton e David Longdon (flautista e vocalista do Big Big Train).

O que você pode nos falar sobre o novo álbum, Grimspound, que foi lançado no final de abril?

Estou realmente feliz com a forma como ocorreu, e feliz por ter escritos algumas passagens também. É um álbum muito dinâmico, tanto nas composições como musicalmente.

Tanto Grimspound quanto On Her Journey To The Sun serão lançados em vinil. Qual sua opinião sobre o retorno do LP como uma forma de contato entre fãs e bandas?

Eu nunca parei de ouvir vinil. É o meu formato favorito desde que eu era criança, e ainda é. Particularmente, acho que isto sente-se mais como um álbum real quando você tem o LP em mãos, ao invés do CD. Eu gosto do som do vinil também, não diria que é melhor – mas que é, é – mas alguns álbuns beneficiam-se das limitações do formato.

RIKARD (SEGUNDO DA ESQUERDA PARA A DIREITA, EM PÉ) COM O BIG BIG TRAIN

Aqui no Brasil, o vinil deixou de ser fabricado a partir dos anos 90, voltando a nascer das cinzas em meados da década passada. Lojas de disco tradicionais acabaram fechando, e a opção foi voltar-se para o mercado internacional, em sites como e-bay ou amazon, para buscar vinis. Essa transição vinil/CD também ocorreu na Suécia,  ou o país manteve-se fabricando os dois formatos ao longo dos anos?

Foi o mesmo aqui – mas algumas lojas deixaram de vender CD’s e DVD’s (e camisetas, canecas, outros mimos), mas não realmente como antes, é claro.

Você também está com um projeto ao lado do monstro baterista Hasse Bruniusson e do guitarrista Roine Stolt, que irá tocar canções do saudoso grupo Samla Mammas Manna. Como surgiu a ideia desse projeto, e o que podemos esperar em termos de shows e lançamentos?

Hasse me ligou e perguntou se eu estava interessado em tocar estas canções ao vivo, em um festival na cidade de Uppsala, ao lado dele, Roine Stolt e o baixista Håkan Almqvist. Isto pareceu ser uma ótima ideia, e como eu ouvi e muito os discos do Samla quando eu era jovem, eu conhecia as canções muito bem na minha cabeça. Isto é ótimo, uma aventura musical e muito divertido de tocar! Nos apresentamos em Gotemburgo há algumas semanas atrás, e foi incrível!

Todos esses projetos envolvem o rock progressivo. Além desse estilo, que outros você costuma ouvir no seu dia a dia?

Eu ouço a maioria dos estilos, muitos deles é relacionado ao prog, mas eu ainda ouço muito de pop/rock ou metal tanto quanto o prog. Sou um grande fã do Pearl Jam e realmente gosto de Chris Cornell. Foi triste ouvir sobre sua morte em maio. Ultimamente eu tenho ouvido muito de Daniel Romano – seus dois últimos disco, Mosey e Modern Pressure, são excelentes!

Falando agora sobre sua carreira no Beardfish, o grupo começou como um quarteto, mas o primeiro disco da banda foi registrado como um quinteto, tendo a presença de Stefan Arosson. Como funcionava o trabalho de divisão dos teclados entre vocês?

Ele tocava todos os teclados ao vivo (principalmente órgão e moog) e eu somente gravei algumas partes das teclas no primeiro álbum. Quando Stefan saiu, pouco depois do primeiro álbum ser lançado, foi quando eu decidi de tocar teclados no Beardfish – nós basicamente não queríamos mais ninguém na banda, e então, eu peguei o papel tanto dos teclados quanto da guitarra. Foi um período muito criativo para nós.

Från en plats du ej kan se… foi todo gravado em sueco, e após ele, demorou três anos para o lançamento de The Sane Day, o qual já veio com letras em inglês. O que ocorreu para essa demora no lançamento dos álbuns, bem como na mudança das letras.

Não mesmo! Antes de tudo, Från En Plats… tem três canções em sueco e quatro em inglês, então, ele foi uma mistura de línguas. E lançamnos The Sane Day em 2005, então foram dois anos, e não três. Hahaha! Fatos pontuados e constatados 😊 A principal razão para levar dois anos para gravar foi que nós tínhamos muito material novo, e não sabíamos onde iríamos gravar. Inicialmente, tentamos gravar em nosso estúdio de ensaios, mas a qualidade do som não era o padrão (muitas dessas gravações podem ser ouvidas em The Early Years – Outtakes and Demos, que foi lançado junto com ComfortZone) mas quando conseguimos o estúdio e a aparelhagem, acho que gravamos a maior parte do álbum em apenas duas semanas – um CD duplo.

Ao mesmo tempo, a partir de The Sane Day, todos os álbuns do Beardfish são conceituais. Quais os motivos que o levaram a escrever histórias tão interessantes, e ainda, como foi “musicalizar” essas histórias?

Principalmente, acredito que são temas claros que surgem quando eu começo a escrever as letras paras as canções, e é fácil cair em um caminho de “ligue os pontos”, você sabe? A música sempre esteve lá, então escrever as letras era sempre a parte mais difícil. Eu tinha que esperar uma boa ideia vir – felizmente, uma boa ideia usualmente leva a outra. Eu acho que esta é a principal razão deles serem álbuns temáticos ou conceituais.

Com Sleeping in the Traffic, você passou a usar o acordeão com destaque, o que acabou não sendo da mesma forma usado nos demais álbuns. Por que você preferiu seguir apenas com os teclados, a guitarra e os vocais?

Existe acordeão em todos os nossos álbuns, com exceção de The Void e +4626-COMFORTZONE – mas ele pode não ter sido creditado nas capas. Sempre tenho a música, mas não qual instrumento eu tocarei. Meu principal objetivo é, e sempre será, atingir o melhor resultado, não importa quais instrumentos serão usados.

RIKARD, O PRIMEIRO DA ESQUERDA PARA DIREITA, COM O BEARDFISH

Aqui na Consultoria do Rock, Sleeping in the Traffic pt. 2 foi eleito um dos dez melhores discos de 2008. Por que o álbum foi dividido em pts 1 e 2, e não foi lançado originalmente no formato duplo, assim como The Sane Day.

Nós não tínhamos todo o material gravado, e ele foi feito durante três sessões diferentes, talvez quatro. É a única razão que eu posso dar.

No encarte de Sleeping in the Traffic vol. 2, você comenta que a faixa-título foi escrita em 2002, fazendo parte das apresentações do grupo, mas que não havia a oportunidade de gravá-la em estúdio. Ao mesmo tempo, você cita algumas dificuldades para concluir a história. Como surgiu especificamente a criação total desses dois álbuns, os quais considero os melhores trabalhos de sua carreira.

Obrigado. A canção por si só foi finalizada em 2002. Existe uma gravação inicial disto naquela época, então, não houve problemas em finalizar a história. MAS, era uma grande música para nós, e eu achava estranho lançar ela em um álbum de forma isolada. Então, ao invés disso, escolhemos construir dois álbuns em torno da canção, e por isso tornou-se um álbum duplo.

Em The Sane Day, percebo influências de Focus na faixa de abertura, “A Love Story”, Frank Zappa em “Igloo on Two”, depois vejo algo de Gentle Giant em “Cashflow”, e, passando por várias outras referências, um K de King Crimson em “Comfort Zone”. Porém, todas essas referências surgem espontaneamente, sem soarem pretensiosas. Como criar algo tão legal com uma base tão sólida de influências?

Hahaha! Bem, você não pode me perguntar isso!! Tenho ouvido diferentes opiniões sobre isto por diversas vezes. Alguns pensam que soamos muito originais e outros pensam que nós rasgamos os outros artistas (alguns você até mencionou). Eu não sei. Para meu conhecimento, nós nunca realmente roubamos qualquer coisa. Existem, possivelmente, partes que soam como outros artistas, acredito eu.

Pessoalmente, quais são seus maiores ídolos e referências para tocar?

Frank Zappa, King Crimson e Gentle Giant eu diria. Mas novamente … Elton John (fase inicial), The Beatles, Chris Cornell (Euphoria Mourning e Soundgarden), Jeff Buckley, Pearl Jam, Samla Mammas Manna + cada artista que eu já tive a felicidade de trabalhar também.

Zappa aliás também é parte de outro projeto seu. Como funciona a seleção de músicas que a banda apresenta em seus shows?

O grupo é chamado Bongo Fury. É um trio com Petter Diamant e seu irmão Rasmus Diamant, junto a mim, fazendo a música de Frank no formato power trio – então, basicamente é o Gungfly (light trio version) tocando canções de Frank Zappa. Somente pegamos aquelas canções que achamos que irá funcionar bem ao tocá-las como trio.

Como foi o encontro da banda com Gary Green durante o ProgDay Festival, bem como a apresentação e receptividade dos americanos nessa que foi a primeira apresentação da banda fora da Suécia.

Foi ótimo encontrar Gary Green. Todos nós smos grandes fãs de Gentle Giant, então foi realmente muito legal que ele estava lá. Isto foi um festival sensacional. Tivemos um grande dia, tanto tocando como assistindo. Fizemos grandes amigos lá, para o resto da vida, como Ray Loboda e Jim Robinson.

Dentre os álbuns do Bearfish, qual foi aquele que você mais curtiu ter composto, e qual o que mais lhe agradou no resultado final.

Meu favorito é Destined Solitaire, seja musicalmente ou pelo período em que nós o construímos.

Na despedida oficial da banda, via seu website, os fãs leem a mensagem com uma frase chocante, falando sobre desentendimentos e várias dificuldades dentro da banda, isso pouco depois de Comfort Zone, bem como novos caminhos vão ser seguidos por cada membro da banda. O que realmente foi o fator determinante para o fim de um projeto tão incrível e maravilhoso como o Beardfish?

Não estávamos funcionando bem juntos em uma mesma sala, há algum tempo.

Podemos esperar um retorno, ao menos para comemorar os 20 anos de carreira?

Nunca sabemos. No momento, sem planos.

Sobre o Brasil, você já teve a oportunidade de vir ao nosso país, seja como turista ou como músico?

Não, infelizmente não. O mais próximo que eu estive do Brasil foi a Guiana Francesa.

Dentro do rock progressivo, nosso país tem nomes de destaque como O Terço, Mutantes, Terreno Baldio, entre outros. Você já ouviu algo progressivo vindo de nosso país?

Não, lamento não conhecer. Irei atrás!

Com tantos projetos em sua carreira, e tantos fãs por aqui, com certeza esperamos que um dia você esteja em nossos palcos para mostrar sua música pessoalmente. Ainda na Consultoria, temos uma seção chamada Notícias Fictícias que Gostaríamos que Fossem Reais. Seria possível tornar real uma notícia como “Rikkard apresenta-se no país em um grande festival?”

Hahaha! Assim espero. Não posso prometer nada. Eu iria amar ir ao Brasil e tocar aí!

Rikard, obrigado por sua atenção e por favor, deixe um recado para nossos leitores e também seus fãs aqui no Brasil.

Obrigado por ouvir nossa música ao longo dos anos. Espero poder tocar ao vivo para vocês em breve!

Abraços

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