Resenha: Dream Theater – Falling Into Infinity (1997)


Por Jefferson A. Nunes

Nota: 

Banda: Dream Theater
Disco: Falling Into Infinity
Ano: 1997
Selo: EastWest

Faixas:
1. New Millennium – 8’20
2. You Not Me – 4’58
3. Peruvian Skies – 6’43
4. Hollow Years – 5’53
5. Burning My Soul – 5’29
6. Hell’s Kitchen – 4’16
7. Lines In The Sand – 12’05
8. Take Away My Pain – 6’03
9. Just Let Me Breathe – 5’28
10. Anna Lee – 5’51
11. Trial Of Tears – 13’07
a) It’s Raining
b) Deep In Heaven
c) The Wasteland

Formação:
James LaBrie – voz
John Myung – baixo
John Petrucci – guitarras e vocais
Mike Portnoy – bateria/percussão e vocais
Derek Sherinian – teclados

Resenha:
O disco mais injustiçado do Dream Theater? Certamente. A verdade é que sua composição gerou choques entre a banda e a gravadora. Os músicos queriam fazer um trabalho mais longo e complexo, em um álbum duplo com mais de 140 minutos. Mostras disso podem ser vistas nos demos do álbum, onde se vê que eles colocariam a Metropolis Part II como uma música só, com mais de 20 minutos, e bastante diferente em muitos pontos da versão final apresentada no disco seguinte, Metropolis Part II: Scenes From A Memory (1999). Além disso, haveria também uma música de 11 minutos chamada ‘Raise The Knife’ que é fantástica, mas também foi cortada. Os músicos a tocaram no show gravado chamado Score (2006).

Mas a gravadora (como acontece com quase todas as bandas progressivas) não aceitou as idéias do grupo, e contratou inclusive o compositor e produtor Desmond Child para reescrever a música You Or Me, que saiu como ‘You Not Me’. Essa pressão fez com que Mike Portnoy cogitasse a saída da banda, coisa que os outros músicos o convenceram a não fazer, ainda mais que havia uma turnê marcada para fazer.

Alguns dizem que Derek Sherinian (que tinha entrado para assumir os teclados do grupo há pouco tempo) influenciou a banda a fazer um som mais comercial, mas isso é uma injustiça, porque alguns dos momentos mais complexos e técnicos do álbum foram de autoria dele.

Por causa desses problemas com a gravadora, do disco Metropolis Part II: Scenes From A Memory (1999) em diante a produção dos álbuns passou a ser feita por Mike Portnoy e por John Petrucci. E, apesar de todos os problemas, as músicas do disco saíram com grande qualidade, e há uma coesão muito interessante entre elas, uma forma de criar diferente do que foi apresentado anteriormente, quando ainda pertencia a banda o tecladista Kevin Moore, tido por alguns como a força criativa do grupo na fase inicial.

1. New Millenium
Uma das minhas músicas preferidas do DT, ‘New Millenium’ tem um clima arábico incrível, que dá uma nova dimensão ao som do grupo. Interessante que o baixista John Myung usou um Chapman Stick nessa música (espécie de baixo e guitarra conjugados que se toca por meio de tapping, e é muito usado pelo renomado músico progressivo Tony Levin), o que deu a sessão rítmica um tom diferenciado.
Começa com uma melodia guitarra/teclado muito boa, que logo depois para deixando só Myung tocando. A linha de guitarra feita por Petrucci para acompanhar essa melodia a partir de 0:43 é meio macabra, e abre espaço para uma parte bem bonita, com uma bela linha de teclado ao fundo. Em 1:22 começa uma melodia “suingada” de guitarra com um pouco de Wah-Wah que é muito bela, e abre espaço para um pequeno solo de guitarra mais baseado em acordes.
Então, em 1:51 um baque na música, e uma melodia extremamente simples mas incrivelmente pesada traz a linha vocal perfeita, que chega a arrepiar, perfeitamente encaixada ao instrumental lento. Em 2:34 a música dá uma acelerada, com um instrumental mais fluido e dançante. A linha vocal de LaBrie e sua entonação são perfeita, casam fantasticamente ao instrumental mais exótico.
O tom mais denso e pesado volta em 3:34, mas dessa fez mais macabro ainda, com backing vocals muito bons de Portnoy. Tem vários momentos distintos, com paradas onde apenas Myung fica tocando, duetos de guitarra e teclado desconcertantes e vários momentos vocais. Impressionante como tanta coisa pode caber em apenas 8:19 minutos…

2. You Not Me
O nome original dessa música era para ser ‘You Or Me’, mas o compositor preferiu mudá-lo para torná-lo mais comercial… É uma música mais comercial de fato, mas nem por isso perde seu valor. Começa com uma batida precisa e rápida, que abre espaço para um riff de guitarra com Wah-Wah bem interessante, que logo pára e deixa apenas Myung fazendo base para o vocal mais suave. Tem pré-refrões mais pesados, e um refrão extremamente comercial, com uma melodia bonita, mas meio manjada. O solo pequeno e mais voltado para acordes mostra que realmente essa música tem apelo para vender, pois raramente músicas comerciais tem solos longos e complexos…

3. Peruvian Skies
Ah, essa sim é uma música Dream Theater legítima! Começa com um dedilhado belíssimo, que serve de base para um vocal suave e muuito bonito. Vai crescendo lentamente em volume, e as melodias vão se tornando mais “inquietas”, até que explodem em 3:22, com a entrada da guitarra distorcida e da batida pesada de Portnoy. O solo agressivo, belo e técnico de guitarra que começa em 3:44 é um dos melhores já feitos por Petrucci na minha opinião e deixa a música ainda mais pesada depois disso.
Tem várias mudanças, até o retorno do refrão em 5:33, mais gritado e agressivo. Acho inevitável destacar a semelhança entre a fase inicial dessa música com a música Have A Cigar do disco Wish You Were Here (1975) do Pink Floyd. Realmente os músicos pareceram se guiar muito por essa música, tanto que uniram as duas em um show presente no disco Once In A LIVEtime (1998).

4. Hollow Years
O cúmulo do comercial? Possivelmente. A verdade é que Hollow Years é uma música belíssima, com melodias acústicas desconcertantes, solos de violão de chorar, vocais suaves e melodia viciante. Não há muito o que dizer a mais sobre ela, a não ser que fez relativo sucesso, e trouxe um dos momentos mais incríveis de shows ao vivo do grupo, onde Petrucci introduz a música com solos muito bonitos e técnicos. Tem um final um pouco mais pesado, mas nem por isso agressivo.

5. Burning My Soul
Bah, que grande música! Sempre que a ouço fico tentado a dizer que ela é a melhor do disco. Tem uma introdução que vai trazendo os instrumentos um a um, a começar pelo baixo, teclado, bateria e guitarra. O riff de guitarra que se inicia em 0:34 é muito pesado e desconcertante, tamanha a perfeição dele.
A linha vocal também é impecável, e vai crescendo até a “explosão” no final dos refrões. As melodias mais voltadas para o Hard Rock fazem dessa uma música diferente das habituais da banda, e que mostra que os membros do DT conseguem tocar magistralmente qualquer estilo. Minha única lástima é o fato do solo de teclado que se inicia em 3:15 não ser de guitarra, por que assim seria perfeito.

6. Hell’s Kitchen
Alguns dizem que é o ponto alto do disco. Eu discordo, mas concordo que essa música instrumental é muito boa. Começa macabra, mais voltada para uma ambiência de teclado, acompanhada pelo baixo no fim dos compassos. A bateria entra em 0:34, com Petrucci fazendo um belo dedilhado de acompanhamento.
Em 0:58 ele começa a fazer um solo mais voltado para Delay’s longos e precisos. O solo evolui juntando pegada com frases rápidas de forma magistral. Fica mais macabro no fim dele, por volta de 2:01, com o acompanhamento do teclado. Depois disso um riff simples abafado de guitarra dá um novo tom à música, e serve de base para um solo de teclado que começa em 2: 47, e que depois é acompanhado pelos demais instrumentos. De 3: 18 em diante novo solo mais simples de guitarra, muito bonito leva a faixa para o encerramento: um acorde longo de teclado.

7. Lines In The Sand
Sem dúvida nenhuma uma das melhores e mais clássicas músicas da banda. Engata na anterior, e começa com uma ambiência e um solo de teclado bem complexos, que servem para desmentir a idéia de que Derek Sherinian tornou o disco comercial. O solo evolui lentamente até 1:12, quando o restante da banda entra. O solo de teclado nessa fase inicial passa para um riff guitarra/teclado que se inicia em 1:51, e traz a melodia dominante da faixa, dançante, cativante e surpreendente.
Em 2:42, uma base baixo/bateria traz a linha vocal mais suave, que ganha agressividade com a entrada de riff’s pesados em 3:19, e que traz o refrão, uma espécie de vocal pergunta-resposta entre LaBrie e uma segunda voz (ao vivo Portnoy faz a primeira voz e LaBrie faz a segunda).
Em 5:37 a banda pára, e Petrucci começa a fazer um solo calmo, acompanhado logo depois por um instrumental suave. O solo começa a evoluir e a ganhar intensidade, nunca perdendo a grande beleza e pegada precisas, e é um dos melhores momentos de Petrucci de todos os tempos, indiscutivelmente.
LaBrie volta a cantar em 7:28, com um instrumental mais suave ao fundo. Em 8:33 Petrucci toca a melodia principal da música novamente, só que de forma bem suave, e que evolui para um novo solo. Após algumas melodias mais “exóticas”, LaBrie volta a cantar em 10:16 mais uma estrofe, que culmina no refrão final, muito agressivo.

8. Take Away My Pain
Uma música com instrumental mais exótico se mostra em ‘Take Away My Pain’, com extrema influência de música indígena (pelo menos foi minha impressão). É bastante comercial, e uma música menos expressiva. O que salva ela é o solo de guitarra espetacular que se inicia em 3:34, belo e técnico.

9. Just Let Me Breathe
Uma música mais intensa e rápida, Just Let Me Breathe é um dos destaques do disco, tendo baixo pulsante, bateria “inquieta”, linhas de teclado mais experimentais, uma guitarra pesada e dinâmica e linhas vocais excelentes. Tem vários momentos distintos, e os solos são mais experimentais, em geral tocados em dueto por Petrucci e Derek. Mesmo assim não possui a qualidade necessária para se tornar um clássico…

10. Anna Lee
Baladona sentimental, começa com uma linha belíssima de piano, acompanhada logo em seguida pela voz calma de LaBrie. Vai crescendo com o tempo, tornando-se mais volumosa, mas somente a voz cresce de fato, os instrumentos se mantêm mais ou menos plácidos durante toda a duração da faixa. Em 3:42 Petrucci faz um belo solo que valoriza bastante a faixa.

11. Trial Of Tears
I) It’s Raining
Uma das minhas músicas favoritas do DT, ‘Trial Of Tears’ merece destaque pela beleza e evolução perfeita da melodia, todos os elementos encaixados nos lugares certos. Começa com uma evolução gradual, que vai de uma ambiência profunda de teclado a frases de guitarra que vão evoluindo lentamente. Portnoy faz um belo trabalho nos pratos e Myung adiciona notas de baixo ao acaso, enquanto Petrucci vai aumentando a intensidade do solo. Então, em 1:45 Portnoy começa a batida base da música e Petrucci termina a linha melódica de forma magistral, parando de tocar em 2:18, quando LaBrie começa a cantar.
Petrucci vai adicionando lick’s nos finais dos tempos, e volta a tocar no refrão perfeito. Tem mais alguns momentos bem interessantes, com instrumentais de muito bom gosto.

II) Deep In Heaven
Acredito que comece em 6:12, e é mais voltada para solos e instrumentações elaboradas. Em 6:28 Petrucci começa um solo muito belo e impressionante, que vai evoluindo e ganhando intensidade e velocidade e é pra mim um dos solos mais espetaculares e impressionantes de todos os tempos. Termina em 8:09, quando o baixo e a bateria seguram a música, e logo depois é a vez do solo de teclado de Derek.
O solo é bem interessante, e enquanto ele é feito, Petrucci faz uma base suingada por trás que dá uma dimensão diferente ao som, e que vai crescendo em volume e se tornando mais pesada. Quando o solo termina, em 9: 53, deixando soar as últimas notas no ar começa a última parte.

III) The Wasteland
Apenas uma linha de violão lenta segura a música, e um som de vento feito pelo teclado fica ao fundo. LaBrie começa a cantar de forma suave uma linha vocal incrível, que vai crescendo até a “explosão” em 11:16, quando o instrumental torna-se volta a ser mais volumoso. Então é cantado o último refrão, mais alto e pesado, um pouco diferente do primeiro. A frase “It’s raining deep in heaven” é bem viciante, e fica na cabeça.
Depois dele o instrumental “morre”, e uma ambiência e solo de guitarra muito parecidos com os do começo terminam de forma magistral essa música fantástica, e também esse álbum tão injustiçado…

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