Esquinas Progressivas – Parte 1 (Por Rafael Senra)


O Clube Da Esquina antes da fama (Lô Borges, Beto Guedes e Milton Nascimento)

Por Rafael Senra

Gênero musical nascido no final dos anos 60 e que teve seu auge na década de 70? Gênero caracterizado pela riqueza harmônica e melódica? Gênero que mescla procedimentos típicos do Rock com influências de Jazz e música clássica? Parece que estou falando de Rock Progressivo, certo? A descrição, contudo, se encaixaria bastante em um certo movimento musical de Minas Gerais, o Clube da Esquina.

Nesse texto, dividido em duas partes, tentarei mapear alguns momentos em que artistas integrantes do Clube da Esquina soaram verdadeiramente progressivos, pincelando albuns completos ou músicas isoladas, onde essa influência pareceu mais explícita.

Obs1: Deixo aqui a ressalva de que talvez esse recorte de canções pode ficar incompleto, e aí peço aos internautas mais atentos que acrescentem um ou outro tema progressivo que tenham passado desapercebidos.
Obs2:
Algumas bandas progressivas que tem relação com o Clube da Esquina, como O Terço ou Sagrado Coração da Terra não serão analisadas – uma vez que, em termos “oficiais”, eles não pertencem ao Clube.

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Lô Borges & Milton Nascimento – Clube Da Esquina (1972)

Certa vez, ao ser perguntada sobre a banda que acabara de deixar, Rita Lee disse que não foram os Mutantes que se tornaram progressivos: na verdade, o mundo havia ficado progressivo. Deve ser por isso que tantos artistas da época compartilharam influências, recursos e timbres que remetem ao estilo. Uma “mimese” por afinidade, que iria cruzar oceanos, continentes, e atracar num estado brasileiro sem porto ou mar: Minas Gerais.

Espontaneamente, como em tantas épocas e lugares, não havia uma intenção consciente de se formar um movimento musical. Quando os músicos de Belo Horizonte se encontravam para tocar, conversar ou tomar uma cervejinha; era mesmo para celebrar suas dores e amores. Talvez porque não havia ainda uma indústria cultural consolidada, que provocasse a necessidade de se unir e seguir nessa direção. Esse tipo de movimentação não passava de uma cena musical, se aglomerando de forma natural. Caberia a generosidade e intuição de Milton Nascimento, então um músico da MPB em ascenção, a iniciativa de mudar isso. Comprando brigas com executivos da EMI Odeon, ele corajosamente organizou aquela cena até então latente, chamando gente aparentemente desconhecida para dividir seus trabalhos.

O disco Milton (1970) é o primeiro registro dentro do Clube da Esquina que apresenta nuances progressivas, apesar de definitivamente não ser um disco do estilo. Como quase toda a carreira de Bituca, é tarefa difícil classificar seu som (geralmente rotulado como MPB, mas tratado no exterior como World Music); entretanto, fãs de progressivo podem ouvir nesse registro alguns arranjos e timbres familiares ao gênero.

Formada para ser apoio de Milton na gravação e turnê desse album, a banda Som Imaginário foi a responsável por introduzir o cantor numa sonoridade menos calcada no “banquinho-e-violão” bossa novista, e mais antenada com o Rock, o Fusion e o Progressivo. A pegada e os timbres desse disco de 1970 se destaca pelos acelerados solos de teclados Hammond e guitarras fuzz em ‘Para Lennon & McCartney’, ou pela psicodelia de ‘Alunar’ (ambas com melodias de Lô Borges, que na época ainda nem completara seus 18 anos).

Além de acompanhar artistas como Gal Costa e Simone, o Som Imaginário lançou três discos próprios naquela década, cada um deles liderado por algum dos seus integrantes. O primeiro, Som Imaginário (1970), é capitaneado pelo maluco Zé Rodrix (que, mais tarde, se uniria a dupla Sá & Guarabyra para criar o gênero Rock Rural). O segundo, Som Imaginário II (1971), contou com composições e arranjos do guitarrista Fredera (ou Frederyko), enquanto que o terceiro, Matança Do Porco (1973), foi idealizado pelo tecladista Wagner Tiso. Esse terceiro registro é o mais bem-acabado dos trabalhos da banda, graças ao conhecimento harmônico e às composições de Tiso.

Tive a honra de conversar pessoalmente com o saxofonista Nivaldo Ornellas, em 2009, e ele me disse que o Som Imaginário tem pelo menos um disco que não foi lançado, com temas instrumentais gravados no fim dos anos 70 (“nessa época, ‘canário’ não entrava”, disse ele). Parece que esse raríssimo registro estava sendo remasterizado, e como a banda recentemente retomou às atividades, é possível que o disco acabe vendo a luz do dia em breve.

Não podemos deixar de mencionar um outro disco dessa primeira metade dos anos 70, feito poucos anos após o lançamento do fundamental Clube Da Esquina (1971), disco de Milton Nascimento e Lô Borges. Quatro músicos que participaram das gravações desse clássico álbum colaboraram mutuamente em um registro coletivo, basicamente batizado com seus nomes: Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli, Toninho Horta (1973).

As três composições de Novelli e as duas de Danilo (sim, filho do grande Dorival) remetem à MPB pós-bossa, enquanto as duas de Toninho Horta (uma delas é simplesmente a primeira e rara gravação do clássico ‘Manuel O Audaz’) antecipam o crossover entre MPB e Jazz que caracteriza a carreira do guitarrista. O Rock Progressivo, porém, aparece mesmo é na faixa ‘Belo Horror’, de Beto Guedes, um pequeno e sombrio épico repleto de mudanças de andamento, com uma melodia arrepiante.

No próximo texto, falaremos do primeiro disco solo de Guedes, de trabalhos da banda 14 Bis, e também da carreira solo de seu líder Flávio Venturini.

Leia a Parte 2 AQUI.

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