Entrevista Saecvla Saecvlorvm – Pelos Séculos Dos Séculos


Antes de qualquer coisa gostaria de agradecer aos integrantes do Saecvla Saecvlorvm pela boa vontade e atenção dispensadas nessa investida histórica. A atenção e a presteza com que me disponibilizaram materiais e informações para a produção desta coluna não podem ser medidas. Meus mais sinceros agradecimentos. Muita luz a todos!

Já que esta coluna tratará do movimento progressivo mineiro, não há como inaugurá-la de forma mais solene, senão, tratando do maior expoente do rock progressivo mineiro e, indubitavelmente, um dos mais notáveis da cena progressiva de todos os tempos em nosso país: Saecvla Saecvlorvm.

O Saecvla Saecvlorvm foi um cometa que cruzou os céus das Gerais de 1974 a 1977. Formada por Giácomo Lombardi (piano), José Audísio (guitarras), Bob Walter (bateria), Edson Plá Viegas e Juninho (baixo) e, especialmente, pelo renomado violinista Marcus Viana (violinos e cellos) que depois viria a formar o excelente Sagrado Coração da Terra, o Saecvla Saecvlorvm teve a vida curta como de uma borboleta.

O Saecvla é comumente associada a um cometa graças sua rápida passagem e notável impacto. Durante aproximadamente três anos a banda conseguiu uma fama invejável, graças às antológicas apresentações ao vivo, dentre as quais se destacam a fastástica apresentação em 1976 no extinto festival Camping Pop (atual Camping & Rock) que reunia e revelava grandes grupos na época, a bem sucedida maratona de shows nos colégios de Belo Horizonte e, muito principalmente, o show de 1977, no teatro Francisco Nunes, que foi a última apresentação da banda e que ainda hoje é lembrado como o melhor evento já realizado neste teatro.

Esta lendária banda, do primeiro time do progressivo nacional, por mais de 20 anos, como quase tudo em minas, foi como ouro escondido debaixo da terra e durante duas décadas era nada mais que uma lenda, até que em 1996, Marcus Viana, através de seu selo Sonhos & Sons, lança o primeiro e único registro oficial da banda.

 

Este disco, intitulado Saecvla Saecvlorvm, é a reconstituição de uma velha fita demo gravada na primavera de 1976, quando o grupo estava prestes a ser lançado pela Warner. Cada membro apresentou o material que possuía e resolveram lançar um cd com as cinco faixas gravadas na época. Após uma minuciosa seleção entre os vários rolos conseguiram recuperar um material quase perdido e destruído pela força do tempo. As gravações recolhidas foram remendadas, consertadas, coladas, benzidas e finalmente, por incrível coincidência, na primavera de 1996, masterizadas digitalmente e editadas. A música contida nesta relíquia fala por si só, não obstante as deficiências da fita original.

Seguindo uma linhagem do rock progressivo sinfônico o disco apresenta tendências clássicas bem definidas, tendo como destaques o violino e o piano executados com notável virtuosismo e a guitarra marcante com claras influências de Steve Howe (Yes). Por uma razão mística as letras, cantadas em português, são muito pouco decifráveis, com exceção de alguns trechos, em que soam muito bem com uma força comparada à mantras sagrados.

Muitas vezes o som do Saecvla Saecvlorvm é comparado com algumas bandas do rock progressivo italiano, dentre elas Premiata Forneria Marconi, Banco Del Mutuo Soccorso, e tantas outras. Essa semelhança se deve às raízes culturais do pianista Giacomo Lombardi, que tinha ascendência italiana e forte influência da cultura italiana.

Algumas canções não foram adicionadas ao disco, pois apresentavam qualidade sonora bastante prejudicadas, sem possibilidade de recuperação. Contudo, muitas destas canções não se perderam por completo, estão arquivadas e algumas foram até revisitadas pelo próprio grupo. Outras, infelizmente, não se tem registro sonoro e vagam pelo Cosmos e assim permaneceram pelos séculos dos séculos…

Esta relíquia, item de colecionador e indiscutivelmente indispensável a qualquer coleção de rock progressivo que se preze, tanto pela virtuosidade e valor incontestável do trabalho, quanto pela curiosidade dos fatos pode ser sua. Clique aqui (FINALIZADA) e saiba como concorrer a um exemplar autografado pelos integrantes da banda. É simples, seguro e gratuito. São 10 exemplares, disponibilizados exclusivamente aos nossos caros leitores.

Por inúmeros fatores e impulsionados por diversos catalisadores o Saecvla Saecvlorvm retomou as atividades no começo do novo milênio. A data precisa da volta é desconhecida, já que a volta foi instintiva e natural, entretanto, o ano de 2003 é visto por muitos como o marco. Gradualmente as atividades foram retomadas e hoje a banda composta por Giacomo Lombardi, José Audísio, Marcus Viana ganhou reforços de peso como Jimmy Duchowny, maestro considerado um dos maiores bateristas de Jazz do país e Léo Araújo, um jovem baixista virtuose de notável técnica e capacidade de improvisação, além de técnico de som e produtor musical, uma grata revelação.

Em julho de 2005 foi realizado um show no teatro Palácio das Artes em homenagem à trágica morte de Mário Castelo, renomado baterista e grande amigo que chegou a realizar quatro apresentações com o Saecvla em Belo Horizonte em ocasiões muito especiais antes de morrer.

Em junho de 2007, gravaram um DVD, na Praça do Papa em Belo Horizonte, e nós tivemos acesso exclusivo ao material, através de um portfólio que ainda passa por processos de produções finais. Posso lhes garantir que é um show maravilhoso, digno da grandiosidade da banda. Todas as canções do disco relíquia foram executadas, além de tantas outras mais, compostas antes e depois da longa pausa. Gentilmente os meninos do Saecvla nos permitiram divulgar com exclusividade este material inédito que em breve, estará à venda para todos os fãs. Disponibilizamos então a canção Rádio no Peito, oriunda do disco de 1976. A linha vocal e a letra deram lugar a uma belíssima adaptação de violino, espero que vocês possam apreciar tanto quanto eu! É mais um presente com exclusividade para vocês.

Eu, patrocinado pela própria vontade, e com a ajuda do grande amigo Léo Araújo (baixista da banda) tive o privilégio de entrevistar os integrantes do Saecvla Saecvlorvm. A longa entrevista revela bons segredos sobre a banda e num clima iluminado e muito bem humorado nos mostra um Saecvla mais intimamente, sem máscaras. Logicamente que numa longa entrevista de aproximadamente três horas de duração muita coisa foi dita, como era inviável disponibilizar a entrevista na íntegra, até porque algumas coisas, a pedido dos membros e obviamente por bom senso não serão divulgadas, fiz um primoroso trabalho de edição. Fiz a entrevista utilizando um gravador de áudio e depois fiz a transcrição e os ajustes finais. Vocês terão acesso à entrevista, concedida com exclusividade:

Entrevista realizada no estúdio particular da banda Saecvla Saecvlorvm em Belo Horizonte no dia 18 de fevereiro de 2008.

 

(Participaram da entrevista: Marcus Viana, Giacomo Lombardi, José Audísio (Pardal), Leonardo Araújo e Jimmy Duchowny) Entrevista concedida a Betto Fernandes.

Betto Fernandes (Uaishine)Porque batizar a banda como Saecvla Saecvlorvm? Qual o significado e quem sugeriu este nome? Porque a letra ”V” no lugar do “U”?

Marcus Viana – Eu confesso que não lembro mais de p***a nenhuma! Eu atualmente tenho assinado Marcus Alzheimer Viana! (risos)

Giacomo Lombardi – Saecvla Saecvlorvm é uma revelação, “Pelos séculos dos séculos, amém!”. Isso é uma frase que há dentro da igreja católica, que fique claro que a gente não está defendendo a bandeira da igreja católica, a frase em latim a gente defende, que é algo que conta como seria o final, ou o início, de um novo planeta. É uma passagem pelo cinturão de Fótons…

José Audísio – É o seguinte, é algo um pouco parecido com a história do Código da Vinci. Existem, atrás do catolicismo, algumas coisas que carregam uma simbologia secreta. Isso é uma coisa antiga, não é coisa de hoje não! Então, Saecvla Saecvlorvm, “Pelos séculos dos séculos”, significa algo que vai durar, algo que não é momentâneo. Bonito! Etéreo!

Marcus Viana – Sobre a grafia, é porque é latim, e não existia a letra “U”, era o “V”. Aí mantivemos a originalidade e respeitamos a língua.

Betto Fernandes (Uaishine)Quando vocês montaram a banda qual era o objetivo? Vocês pretendiam apenas se divertir, queriam ganhar dinheiro, ficar famosos?

José Audísio – Divertir! (risos)

Marcus Viana – Terapia de grupo! (risos) To brincando!

Giacomo Lombardi – Eu desde que nasci escutei música dentro de casa, meu pai era maestro, então o meu desejo era ser músico mesmo. Eu estudei em escola de música, fiz faculdade de música, o meu sonho era ser compositor, musicista, eu queria ser músico mesmo. Inclusive quando eu fiz vestibular, pra arquitetura, eu sabia tudo e marcava tudo errado com o propósito de ser músico! Dei aula muito tempo, sofri, como qualquer músico sofre, toquei na Orquestra da Ordem dos Músicos, toquei na noite, toquei na p**a que pariu! Mas por uma conjuntura qualquer eu trilhei outro espaço, mas ainda pra conseguir comprar uma aparelhagem pra continuar fazendo música, porque esse trem não sai do sangue!

Marcus Viana – O Zé, não é cientista não… Por formação acadêmica ele estudou um tempo geologia depois ciência da computação, trabalha com isso e toca no Saecvla Saecvlorvm! (risos) O Jimmy, o Léo e eu estamos mais ligados à música, d’uma forma mais profissional.

Giacomo Lombardi – Eu tenho uma empresa, que é completamente diferente do que eu faço artisticamente, mas que não seria nada se não fosse a música. Se não fosse a inspiração musical e a minha vontade de fazer alguma coisa no palco, ela não seria nada! Então, meu objetivo era realmente ser músico!

Betto Fernandes (Uaishine)As letras do Saecvla Saecvlorvm sempre tiveram um alto teor espiritual e filosófico, qual era a inspiração e o objetivo? De onde surgiam estas poesias? Porque elas estão tão pouco audíveis e decifráveis?

Giacomo Lombardi – A gente nunca teve uma proposta de dizer assim: vamos falar a respeito de determinada coisa. A gente falava, e fala até hoje, do que está acontecendo. A gente tenta passar uma revelação do que a gente enxerga. Um objetivo primordial era falar nas músicas aquilo que a gente acreditava, e continuamos acreditando até hoje. É um péssimo sinal falarmos disso hoje, não precisávamos repetir. A nossa crença foi: O que está acontecendo no planeta hoje, nós já tínhamos essa visão, sempre tivemos esta visão, isso que acontece hoje, nós já sabíamos há 40 anos atrás. Eu não vou aprofundar muito, pois realmente é uma questão espiritual e muito profunda mesmo. Essa inversão de pólo, que, provavelmente irá acontecer; essa inversão climática e isso tudo… Por isso que a gente fala “Me deixe voltar pro fundo do mar…”, que são as nossas origens desta carne que está aqui, e depois a gente fala “São filhos, não seus filhos, são filhos do amanhã…”, que é uma visão espiritual que no mundo do futuro, os filhos não serão unicamente os nossos filhos, se eu tiver um filho, ele vai ser filho de todo mundo, que a função maior é nós sermos irmãos, uma família planetária…

Marcus Viana – As civilizações dos planetas avançados são assim: Não existe núcleo familiar, existe núcleo tribal. É uma comunidade…

Giacomo Lombardi – Então, todas as frases têm essa questão filosófica, essa questão espiritual que a gente acreditou desde 40 anos atrás. Mas falar que somos poetas? Não! Poetas não! Falamos palavras que, talvez, tenham muita força!

Marcus Viana – A música faz nascer palavras! Nas criações tanto do Zé, quanto do Giacomo, ou minhas eu sinto que soa muito isso, a harmonia traz sempre a palavra! A palavra é gerada pela experiência musical, e não o contrário.

José Audísio – Eu vejo as nossas frases como bolhas, saindo do meio da música e explodindo.

Betto Fernandes (Uaishine)Eu quero ver o sol, por exemplo!

(fez-se silêncio por alguns segundos)

Giacomo Lombardi – Incrível, não é?!

Marcus Viana – Uma frase e diz tudo! É mantra! Na verdade estamos fazendo mantras “Om Mani Padme Hum”, “Eu quero ver o sol”…

Giacomo Lombardi – O Marquinho falou uma coisa muito séria, porque a coisa acontece muito sem querer, sai em função da música mesmo e sem querer é um concretismo que é bonito! Uma frase só falando tudo. Mas são legendas, que acompanham o som. Apenas legendas.

José Audísio – É como se as letras estivessem dentro da música e aquele pedacinho, que pode ser entendido, é como se fosse um pedaço da música que se metamorfoseou, surgiu dali de dentro uma frase e depois voltou pra dentro do som.

Marcus Viana – A gente vai assustar o Betto! (risos)

Betto Fernandes (Uaishine)Marcus, o que você pode nos contar sobre a relação entre Marcus Viana e Saecvla Saecvlorvm? O que esta banda significou na sua vida?

Marcus Viana – Eu era um antes do Saecvla, e eu fui outro depois. Só isso resume tudo! Eu cheguei um e saí outro! (risos) Eu entrei um elemento e passei dentro dessa câmara hermética, dessa sociedade secreta, e saí iniciado! Aprendi muito! Aprendi outros caminhos de música! O Saecvla era um liquidificador espiritual e musical, então, invés de eu lidar com os elementos separados em minha vida, misturou tudo. O Saecvla era um liquidificador fantástico e poucas pessoas puderam ter uma iniciação igual eu tive na época! Foi impressionante! O cenário mineiro, na época, era muito interessante. Tinha muitas bandas legais! O Saecvla foi a maior expressão, mas tinha também o Banquete 93 de Cogumelos, que me preparou pro Saecvla porque foi a primeira experiência de eletrificar o violino, e o Banquete foi uma confusão, olha o nome do trem: Banquete 93 de Cogumelos (risos) Eu saí numa fissura dessa experiência lisérgica do violino, que é um instrumento muito clássico e que unido aos elementos do rock se torna mágico! Quando eu encontrei estes caras, foi assim, sabe quando você pede um sonho e fica esperando aquilo acontecer? Quando eu vi os meninos abrindo o show dos Mutantes, algo me falou assim “olha aí os caras que você queria encontrar!”, e eu me lembro claramente da frase que eu falei com eles: “eu sou de vocês!” (risos) E eles falaram como se já me conhecessem a mil anos: “Que legal! Você toca violino? Que ótimo, entrou na banda!” (risos) Hoje quem é que faz isso?

José Audísio – Mas o contexto era muito diferente, Marquinhos! Rock era uma coisa meio fora da linha. Música era coisa de maluco e rock’n’roll então, nem se fala… Cada figura! (risos) Entrava lá em casa… Cadê aquela foto antiga? Pega aquela foto e mostra pro Betto! (risos)

Marcus Viana – Pra época era escandaloso o trem! (risos)

José Audísio – Então, entrava lá em casa a galera… Aquela fila…Aquele cabelão… Aquela coisa mais esquisita, uma coisa totalmente de outro mundo, naquele tempo.

Giacomo Lombardi – O que acontecia antigamente, Betto, é que quem tivesse um cabelo igual o seu era tão único, no meio de 150 mil pessoas… Um brinco na orelha era tão único…

José Audísio – Só pra você ter uma idéia, teve um dia em 77, que o DOPS baixou lá na Praça da Liberdade ameaçando prender todo mundo que tinha cabelo grande. Eu tive que cortar meu cabelo pra tocar no Francisco Nunes! Eles ameaçaram mesmo prender quem tivesse cabelo grande!

Giacomo Lombardi – Era, naquele tempo, uma agressão à moral e aos bons costumes e também pela situação da ditadura militar que nós vivíamos. Quem não queria ser preso tinha que cortar o cabelo!

José Audísio – E eu cortei o meu! (risos) Era complicado mesmo!

Giacomo Lombardi – E quando o Marquinhos falou que queria entrar pra banda pra tocar violino e nós vimos que ele era da mesma “escola” musical eu falei “p**a que pariu! Que coisa boa! Era tudo que eu queria!”.

Betto Fernandes (Uaishine)O Saecvla Saecvlorvm aconteceu num momento histórico espetacular, um período de uma efervescência cultural ímpar na história moderna da humanidade. Tanto aqui no Brasil, por advento da ditadura militar, quanto fora estava sendo feita muita coisa boa, dentre elas o rock progressivo. Neste cenário múltiplo era impossível absorver tudo, mas o que vocês poderiam apontar como principais influências?

Giacomo Lombardi – A minha maior influência é o Marcus Viana! (risos)

Marcus Viana – E a minha é o Giacomo! E é verdade! (risos)

Betto Fernandes (Uaishine)E você, Pardal?

José Audísio – Eu tive!

Marcus Viana – Mas porque com guitarrista é diferente! Se o Giacomo falar as influências dele você cai pra trás! Quer ver? Folclore italiano, folclore mundial, música dos anos 50 e 60, jazz e bossa nova, graças ao pai dele. Minha influência era de clássico, graças ao meu pai e música popular brasileira, mesmo! Coisa de jeca, de interior! E o Pardal tinha sim muita influência, por ser guitarrista.

José Audísio – Eu escutava muito Steve Howe, Ritchie Blackmore, Johnny Winter, Robert Fripp, Steve Hacket, Albert King, Alvim Lee, Sergio Dias Batista… Eu sou bem dessa linha aí! Hoje gosto muito do Steve Morse band, Eric Johnson, John Petrucchi.

Marcus Viana – Ele é o rock. É o que aterra a gente! (risos) O Giacomo faz aquele acorde limpinho e ele vem com a guitarra meio distorcida, é ele que aterra a gente e faz aquele som meio clássico distorcido. E eu acho que a beleza do Saecvla é esta! Porque o Giacomo é harpejo técnico o tempo inteiro, e o Zé vem com a guitarra dele que não é limpa, com um overdrive, sujando esse classicismo que ia ficar sobrando e não seria rock, ia ser outra coisa!

Giacomo Lombardi – Quando eu escuto as frases que o Zé, de repente, faz na guitarra e passa junto com o baixo, eu acho de uma genialidade tão grande que eu falo “c*****o, olha que contra-canto mais louco que está acontecendo aqui!”, não estou falando daquela coisa que tem no clássico que é o contraponto, aqui é um contra-canto mesmo! Isso aí é doideira dele mesmo, e a influência dele, acho que não valeu de nada, porque eu sou muito mais você do que o resto que você falou aí, Zé! (risos) O mais engraçado era que a gente não escutava muito as outras coisas não! O que a gente fazia de rock progressivo naquela época, eu não tinha a menor noção do que estava acontecendo na Europa!

Marcus Viana – Nem eu!

José Audísio – Isso é que foi legal! Acho que isso é o diferencial do Saecvla!

Marcus Viana – Depois falavam com a gente “isso parece com Premiata”, aí nós fomos procurar a tal Premiata pra ouvir um disco e ninguém acreditou no que estava acontecendo. Ficou todo mundo chocado! Tinha a ver! (falando impressionado).

Giacomo Lombardi – Parece mesmo! Quando eu ouvi eu falei “c*****o, não é possível!”, e até hoje quando eu escuto Premiata eu falo “essa frase aí é minha, não é do cara que está fazendo!” (cantarolando a canção E’ Festa) … Tem relação com essas raízes italianas! Pela influência do meu pai eu tive muita influência da cultura italiana, pra você ter uma idéia, eu com cinco pra seis anos mal-mal falava português, imagina a doideira que era! Eu entrei pra escola e a professora falava “colher” e eu dizia “eu não sei o que é isso não!”. (risos) Eu só falava italiano.

José Audísio – E eu acho que isso é o mais legal do Saecvla!

Giacomo Lombardi – Sinceramente? Gênesis, Yes e essa coisa toda pipocando eu nunca ouvia. Vou te contar um segredo, mal-mal eu consigo escutar um disco nosso do princípio até o fim!

José Audísio – É verdade!

Giacomo Lombardi – Eu não escuto p***a nenhuma! É a coisa mais incrível do planeta! Não consigo! Às vezes escuto uns discos que o Marquinhos me dá, ouço duas faixas e encosto! Aí, de repente, vejo uma que eu gravei e falo “olha eu aí!”, eu não consigo mesmo!

Marcus Viana – Porque a sua experiência é de executar e não de ouvir!

Giacomo Lombardi – Eu não ouvia nada disso!

Betto Fernandes (Uaishine)Mas isso é fantástico! Muita gente pensa que Premiata Forneria Marconi foi uma grande influência da banda e vemos que não! O mesmo se pensa sobre Mahavishnu Orchestra, já que a banda utilizava bastante violino. Nenhuma influência, então?

Giacomo Lombardi – Nada! A coisa estava saindo naturalmente!

Marcus Viana – Me influenciou depois que eu comecei a ouvir, depois de todo mundo falar!

Giacomo Lombardi – É! Sabe o que me influenciou muito? Mutantes pré-progressivo, a fase da tropicália! Sabe? (cantarolando a canção Top Top) … Esse rock, aquela coisa bem com Rita Lee mesmo! Aquilo me influenciou muito! Mas o progressivo dos Mutantes eu fui ouvir depois que a gente já estava tocando!

José Audísio – Mas o progressivo dos Mutantes foi a fase que realmente abalou… ‘Tudo foi feito pelo Sol’. (nós quatro entoamos juntos o nome do disco) Aquilo ali foi coisa de louco! Sinceramente! Eu cheguei num show dos Mutantes, eu deveria ter uns 19 anos, lá no Francisco Nunes…

Marcus Viana – Conta mais um segredo seu, Zé! (risos)

Giacomo Lombardi – Hoje ele está entregando é tudo! (risos)

José Audísio – Betto, você ir num show dos Mutantes, era a coisa mais underground do mundo! Eu fui num show do Módulo 1000, em 1970, os caras saíram do Rio de Janeiro pra tocar aqui, parecia uma convenção secreta, tipo “Módulo 1000 vai tocar lá no teatro Marília!” (falando baixinho como se estivesse contando um segredo) Um burburinho que rolava, e tinha cada figura e parecia que você ia receber uma mensagem ali no meio daquele trem! Era uma coisa diferente, os shows não tinham este espírito comercial que tem hoje!

Betto Fernandes (Uaishine)Essa pergunta que vou fazer talvez seja a mais difícil pra vocês responderem, pois, eu também sou músico, e sei que, na maioria das vezes, somos modestos e humildes demais com nossas produções, mas, sinceramente, como vocês enxergam o Saecvla Saecvlorvm dentro do cenário do rock progressivo internacional? Qual a importância e a representatividade da banda perante as demais bandas mundo a fora?

Giacomo Lombardi – Nó!

Marcus Viana – Nossa Senhora!

José Audísio – Que pergunta difícil, Betto!

Betto Fernandes (Uaishine)Vocês não vão falar que a banda é um porcaria, não é?! (risos)

Marcus Viana – Não! De forma alguma! Acontece que o Saecvla ainda é desconhecido no cenário internacional no grau de valor que ele tem. O que vai mudar agora com o DVD.

José Audísio – É!

Giacomo Lombardi – Isso!

Marcus Viana – Mas até agora o Saecvla não tem, não é reconhecimento não, é conhecimento por parte do mercado que gosta disso! Por culpa nossa mesmo! Pelas trajetórias de vida que nos levou a procurar caminhos de sobrevivência, porque sobreviver de música neste país é um horror! A trajetória cármica de nossas vidas não deixou! Então este resgate tardio, mais ainda em tempo, com o DVD.

Giacomo Lombardi – Exatamente! Ainda em tempo, porque este estilo está retornando com muita força.

Betto Fernandes (Uaishine)Eu perguntei porque eu trabalho com turismo, sou guia de turismo, não sou jornalista, escrevo por uma motivação interior, um tipo de paixão, e eu trabalhei há algum tempo atrás com um casal de italianos que eram loucos com rock progressivo e eu lhes apresentei o Saecvla e eles piraram. Levaram um exemplar do disco pra Roma. E falaram que parecia muito com Premiata e Banco. (risos)

Giacomo Lombardi – O que eu posso te falar é que a banda não deve nada a nenhuma banda internacional se elas forem se apresentar uma ao lado da outra. Isso eu lhe garanto, mas é claro que não somos conhecidos.

Marcus Viana – Somos um banda de rock progressivo neo-clássico, mas tem uma visceralidade, oriunda da guitarra do Pardal que quebra tudo, um pouco! A entrada do Léo trouxe um certo swing…

Giacomo Lombardi – O Jimmy é um baterista de formação clássica, jazzística, e veio agregar um valor inacreditável! Você perdeu ele no Rio de Janeiro fazendo um solo nos pratos! Pra mim não teve nada melhor! Todo mundo esperou que ele fosse atacar tudo e ele atacou só os pratos, tamanha a sensibilidade!

José Audísio – O Jimmy foi aplaudido de pé, depois deste solo. Teve um cara na Internet que escreveu quase uma crônica sobre este solo de bateria! Incrível!

Giacomo Lombardi – Então, é claro que internacionalmente como o DVD a gente vai se expor!

Marcus Viana – É algo bem mineiro mesmo! O ouro fica lá, ninguém garimpou, ficou lá na terra…

Giacomo Lombardi – Mas é ouro!

Marcus Viana – E agora a gente bateou vai lixar, polir, e vai expor a pepita e falar “Isso aqui é um ouro que está desde 1974 brilhando no chão!”, sacou?

José Audísio – Mas o que acho mais legal do Saecvla é que a gente gosta de tocar entre nós, gostamos de ensaiar de estar junto, independe do que aconteça!

Giacomo Lombardi – E as coisas acontecem muito sem querer! É muito espontâneo o que acontece e o que vai acontecer!

José Audísio – E a gente está sempre tocando!

Jimmy Duchowny – Essa foi a banda que eu mais ensaiei na minha vida! (risos)

(todos começam a rir)

Marcus Viana – Só não se apresenta, mas ensaia! (risos) O Jimmy que está entrando agora na questão terapêutica da coisa. Os anglo-saxões são muito objetivos nas questões profissionais! Time is money, yeah?! (risos) E nós somos esta coisa… E agora que ele está percebendo que há uma terapia emocional e vibracional em volta! (risos)

Giacomo Lombardi – Betto, quando você chegou a gente estava compondo, você viu como é? Por incrível que pareça, você partilhou um momento especialíssimo, pois quando você chegou tinha 5 minutos que a música estava começando a ser feita e a coisa é muito espontânea, a coisa vai acontecendo de uma maneira tal que é coisa de louco! Não tem isso de sentar pra compor, a coisa vai!

Marcus Viana – E voltando ao assunto, a resposta internacional ao Saecvla eu estou doido pra ver!

Giacomo Lombardi – O selo do Marquinhos já distribuiu o nosso cd pra fora do país, então tem muita gente que conhece, mas são pessoas esporádicas, que comentam a respeito da banda e o comentário é sempre muito bom!

José Audísio – Os comentários internacionais que eu já vi na Internet são muito legais!

Marcus Viana – Eu tenho vontade de que a Europa conheça! Eu vou falar Europa mais do que América do Norte, porque há uma grande aceitação e um grande carinho com a mistura do rock com o clássico, graças a tradição clássica européia. Eu to doido pra ver a reação dos italianos, dos alemães e dos ingleses, principalmente, porque eles são muito fechados, o mercado é muito fechado! Eu vou rir, porque eu tenho certeza que muita gente vai arrepiar quando conhecer este trabalho!

José Audísio – Na Argentina também o apelo é bem maior! E em toda América latina!

Giacomo Lombardi – Nossa! Mas minha vontade mesmo era tocar em Tókio! Ia ser engraçado demais! (risos) Saecvla Saecvlorvm, né? (imitando o sotaque japonês e com o dedo esticando os olhos) … (risos)

Betto Fernandes (Uaishine)Quando e por quais motivos a banda finalizou as atividades?

Marcus Viana – Aham… (risos)

Giacomo Lombardi – Tem perguntas que a gente não gosta de responder. (risos)

José Audísio – A gente deu uma parada! (risos)

Marcus Viana – Hoje a gente sabe que a banda deu uma parada de 30 anos. (risos) Foi pra fazer uma digestão. (risos) Porque a gente comeu um dinossauro! (risos)

Betto Fernandes (Uaishine)E quando e porque a banda retornou? (mudando de assunto)

Giacomo Lombardi – Uai! Vai saber! (risos)

Marcus Viana – Falando sério, respondendo à primeira pergunta, nós não estávamos prontos para o mercado da música na época…

José Audísio – É!

Giacomo Lombardi – É!

Marcus Viana – Nós não soubemos aproveitar a oportunidade que surgiu quando a Warner quis nos oferecer um trabalho! Não estávamos preparados pra fazer faixas menores, radiofônicas, a gente queria fazer progressivo grandão e os caras já estavam na época de querer cortar as faixas e tal! Aí perdemos a grande oportunidade de sermos lançados pela Warner que lançou ‘A Cor do Som’.

José Audísio – A Warner mandou um cara aqui pra Belo Horizonte, pagava o estúdio da Bemol…

Giacomo Lombardi – Sabe o nome do cara que chegou aqui? (risos)

José Audísio – Liminha! (risos)

Betto Fernandes (Uaishine)Liminha? (espantado)

(todos começam a rir)

Marcus Viana – E na mesma época surgiram oportunidades de vida diferentes: a do Zé foi rodar o mundo, pro Giacomo foi uma sociedade muito legal…

Giacomo Lombardi – Por sobrevivência mesmo!

Marcus Viana – Uma sociedade muito legal que veio dar na Vide Bula. Ele, dentro do núcleo familiar, fez uma empresa de sucesso! Decolaram e com o esforço destes anos e fizeram o que hoje é a Vide Bula, entre outras coisas, e no meu caso a entrada profissional, eu larguei o curso de direito…

Giacomo Lombardi – Graças a deus!

Marcus Viana – E fui ser violinista da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, a orquestra me dava uma grana, e eu trabalhava três horas por dia e ficava liberado o resto do tempo pra fazer outras coisas então eu comecei a criar o Sagrado Coração da Terra, vivendo das memórias felizes que tinham sido o Saecvla. É claro querendo reproduzir aquela coisa maravilhosa que tinha sido o Saecvla.

José Audísio – Eu acho que no Sagrado o Marcus tinha uma visão de trazer toda essa bagagem tecnicista de muita bagagem musical, muito arranjo…

Marcus Viana – Mas não foi isso que o Betto perguntou.

José Audísio – Eu sei o que ele perguntou! (risos)

 

Marcus Viana – Mas eu, pela grana da orquestra, do Zé vagueou por aí…

Giacomo Lombardi – É… O Zé é outra estória!

Marcus Viana – E o Giacomo que trabalhava igual um mouro, porque na família dele eram vinte horas de trabalho! Dormiam quatro e trabalhavam vinte!

Giacomo Lombardi – É… O pessoal foi morrendo eu tinha que trabalhar! Pai e mãe morrem, eu vou viver de que? Eu tinha que dar um jeito na vida!

Marcus Viana – E eu tive a sorte de trabalhar só três horas pela manha na orquestra e ter a tarde inteira pra correr atrás de disco voador, escrever poesia, e criar uma banda que na verdade era filha do Saecvla (Sagrado Coração da Terra). E essa experiência toda gerou a volta!

Giacomo Lombardi – É!

Marcus Viana – Ficou tudo no ar, suspenso, a vida fez com que eles voltassem a tocar novamente, a velha dupla que começou o Saecvla… Antônio Carlos e Jocafi… (risos)

Giacomo Lombardi – Roberto e Erasmo! (risos) Chitãozinho e Xororó! (risos)

Marcus Viana – A volta foi instintiva e natural!

José Audísio – Foi assim, o Giacomo tava lá na casa dele e fez uma música que é o ‘Andes’, uma nova música nossa…

Betto Fernandes (Uaishine)Fantástica! Vocês tocaram ela na Praça do Papa, tem um flautim no início…

José Audísio – É! Aí ele ligou lá pra casa e falou assim “To com uma música que é a cara do Saecvla Saecvlorvm” (empolgado com a mão em forma de telefone) Aí eu falei “Então eu to com um pedaço aqui que vai encaixar certinho!” Foi a conta dele me mostrar o que tinha feito emendamos com a outra parte aí o Marcos colou mais uns temperos e isso e aqui e aí… (risos)

Giacomo Lombardi– E foi legal que depois de 30 anos a gente foi terminar música que a gente tinha começado!

Marcus Viana – E é interessante porque o Saecvla voltou várias vezes, a volta não foi uma volta assim não! Cada um continuou a tocar sua vida…

José Audísio – Tranqüilo…

Marcus Viana – Porque, obviamente, não dá pra inverter o fluxo da vida, do rio… Mas a gente passou a se encontrar e partir para experiências, desde tocar em barzinho… A primeira vez que eu toquei em barzinho na minha vida foi com eles!

José Audísio – Isso foi uma coisa histórica! (empolgado) Saecvla Saecvlorvm fez o Marcus Viana tocar num bar! (risos) O dono do bar, o René, (Fundo do Baú) colocou um retrato na parede! O bar cabia duzentos e cinqüenta pessoas, completamente estourando de gente! Numa noite de tempestade!

Giacomo Lombardi – Mas foi do c*****o! (risos) O Léo estava só imaginando ali que nessa brincadeira, eu nem sei em que ponto a gente estava, ele estava no saco do pai dele! (risos)

Marcus Viana – Era uma espermatogônia! (risos)

Betto Fernandes (Uaishine)Sobre este episódio com o Liminha, o que mais vocês podem nos contar? Ele realmente censurou algumas canções?

José Audísio – Não! Não aconteceu nada disso, essa é uma má interpretação! Pelo contrário, ele foi até muito gentil e legal O problema foi que não tinha jeito da nossa música tocar em rádio. No progressivo as músicas são às vezes de longa duração até dez minutos…

Marcus Viana – E as faixas tinham que ter três, três e meio, no máximo quatro…

José Audísio – Então ouve um esquema de tentar fazer coisa menor! Aí ele foi na mesa, cortou, e a gente estava editando ‘Eu quero ver o Sol’, aí tinha uma segunda parte, ele abaixou… Desligou a mesa no meio da gravação! Parece que não gostou muito do som, acho que não gostou muito, na época estava produzindo uma banda chamada “Black Rio” e estava noutro clima. Ele chegou no estúdio meio… Meio… Sabe aquele cara querendo bancar o humilde?

Giacomo Lombardi – O momento musical brasileiro não aceitava este tipo de coisa! O momento pedia música de três a quatro minutos e isso não era a nossa característica. Mas como a gente era bastante revoltado com qualquer tipo de opinião, a gente foi mal educado! (risos) Principalmente eu que falei com ele: “quem nasceu pra ser Liminha não chega a laranjinha!” (risos) C*****o, não deveria ter falado isso! (risos)

José Audísio – É, realmente foi uma péssima recepção!

Giacomo Lombardi – Mas, realmente, jovem é mais intempestivo.

Marcus Viana – E eu fui o único que contemporizei! Eu até falei com ele “eu vou falar com os meninos, eles estão nervosos, foi o dia inteiro trabalhando, perdoa aí!”, e tentando apagar o incêndio. Aí ele falou assim, “gostei de você com seu violino, no dia que você tiver um trabalho você leva pra eu ver! Estes caras não estão preparados pra nada não!”, quando eu cheguei com o trabalho lá em 82, ele falou “Marquinhos, chegou atrasado, agora o negócio é Lulu Santos… Se você fizer uns trem pop assim… “, e me mostrou uns sons, aí eu ri! (risos)

José Audísio – Ainda bem que você não fez, ainda bem que você fez a trilha do ‘Pantanal’ fez o “Sagrado Coração da Terra “ e seguiu seu caminho…

Marcus Viana – O fato é que as músicas não foram censuradas, ele queria comercializar e a gente não deixou mesmo! O ofendeu, e ficamos ofendidos! E éramos jovens, então polemizamos, o enfrentamos… Peitamos o cara! Não engolimos!

Giacomo Lombardi – Ninguém sabia, por exemplo, que Liminha viria a ser um grande expoente da produção musical! Liminha pra mim era um ex-mutante, ponto!

José Audísio – É! Ele estava começando como produtor.

Giacomo Lombardi – Então, mexer na minha música, porque? Não! A gente não queria que mexesse! Foi um ímpeto de juventude? Foi! Mas será que o Saecvla Saecvlorvm faria uma coisa comercial boa de três ou quatro minutos? Isso era a introdução de uma música! A gente ia fazer uma m***a!

José Audísio – A gente ia fazer o flautim da música ‘Andes’! Não dá pra contar a estória!

Marcus Viana – Nenhum de nós era cantor de voz exponencial, a gente trabalha mais em voz de grupo. A voz do Giacomo é mais lírica e a gente ia conseguir fazer duas canções, e ia ficar tudo parecido, a gente ia morrer na praia…

Giacomo Lombardi – Ia virar uma m***a!

Marcus Viana – O ‘quente’ da gente são as grandes obras, as suítes, não são canções pequenas!

Betto Fernandes (Uaishine)Vocês tem um consenso de qual foi o melhor show da banda?

José Audísio – Tenho! E sei que é consenso! 31 de março de 1977, Francisco Nunes, Belo Horizonte! (empolgado)

Marcus Viana – Onde a gente estava com uma virilidade! (empolgado)

José Audísio – Foi uma coisa alienígena! Teve gente que viu este show… Teve um cara que chegou em mim e falou assim, “eu levitei!”, só isso que o cara falou! (muito empolgado (Giacomo dispara em gargalhada)

Marcus Viana – E foi último show da banda!

José Audísio – Teve uma quantidade de cadeira quebrada dentro do Francisco Nunes… Foi uma… Uma… Um êxtase! Estourou a bilheteria, tinha gente até na Avenida Afonso Pena… Foi uma… E… Virou uma coqueluche o trem! Então, clima estava todo pra gente tocar! (muito empolgado)

Betto Fernandes (Uaishine)Eu fui a este show! Estava no saco do meu pai! (risos)

Giacomo Lombardi – Eu não consigo me lembrar de nenhum show! Pra mim o melhor show é o show de ontem, hoje e amanhã! Palco, pra mim, é uma coisa impressionante! Se você falar “vamos tocar aqui”, pra mim este vai ser o melhor show! Tremo antes de entrar, gozo na hora de tocar e pra mim são momento inesquecíveis! Quando acaba um show eu fico assim… Mesmo que tenha sido uma m***a!

Marcus Viana – Teve a noite de domingo no Rio de Janeiro!

Giacomo Lombardi – Pelo amor de Deus! Que show foi aquele?! (muito empolgado)

José Audísio – Foi o segundo melhor show! (empolgado)

(começaram todos a falar ao mesmo tempo e relembrar inúmeros shows)

José Audísio – Teve aquele em Ouro Preto! Teve aquele em Ouro Preto! (chamando a atenção)

Giacomo Lombardi – Ouro preto, pra mim… O que foi aquilo?! Aquele teatrinho pequenininho!

José Audísio – E foi a estréia do Marcus! Foi uma experiência…

Giacomo Lombardi – Marquinhos, aquele show de Ouro Preto foi incrível!

Marcus Viana – Um teatrinho barroco do século XVIII…

Betto Fernandes (Uaishine)Trabalho com turismo e conheço bem o teatro. É o teatro mais antigo ainda em funcionamento na América latina, é de 1770, em estilo de influência inglesa, elisabetano, tipo Madson Square Garden, só que bem menorzinho! Um brinco!

José Audísio – Isso! Na hora em que eu entrei no teatro e desci carregando o meu amplificador, um valvulado que eu tinha, eu fui ouvindo uma coisa assim, lá do palco, quase a luz de velas… (cantarolando a canção Sinfonia de Bagdá) … Eram eles dois começando a compor um trem que chama Sinfonia de Bagdá! Foi uma coisa… Eu fui transportado pra outro lugar! (empolgado)

Giacomo Lombardi – E não confunda Bagdá com Grande-BH. (risos) Na época não tinha nem Osama nem Barack Obama! (risos) Isso dá um rock do c*****o! (risos)

José Audísio – Que barraco, Obama! (risos)

Betto Fernandes (Uaishine)Vocês pretendem gravar um disco com as novas canções, e algumas inéditas que foram iniciadas na década de 70 e finalizadas agora?

José Audísio – O Jimmy sabe a resposta!

Jimmy Duchowny – Eu não to sabendo de nada!

(todos começaram a rir)

Marcus Viana – Nós estamos neste processo do DVD, mas eu não tenho coragem de pegar o áudio do DVD e soltar um CD, olha que coisa engraçada!

Giacomo Lombardi – Nem eu!

Marcus Viana – Não sei porque mas eu acho que o nosso som na Praça do Papa foi gravado de uma forma muito rústica…

José Audísio – Crua…

Marcus Viana – Foi só pra preservar e estimular a banda a crescer! Este DVD vai funcionar como um combustível pra gente voltar a crescer. Nós vamos sim gravar um disco, bem feito, bem gravado, mas atualmente nos empenhamos no DVD, porque eu acho que o Saecvla precisa agora sair um pouco do Brasil.

Giacomo Lombardi – E algumas coisas que estão no primeiro a gente têm que reeditar, gravar duma maneira mais bacana…

Betto Fernandes (Uaishine)Então há também o interesse de regravar o disco relíquia?

Marcus Viana – Sim, mas re-visitado!

Betto Fernandes (Uaishine)Claro!

Giacomo Lombardi – Porque a essência está lá! É um trem que não dá pra mexer!

Marcus Viana – O tema está lá! Mas eu tenho certeza que nós tocaríamos tudo diferente!

José Audísio – Claro! Não tenha dúvida!

Marcus Viana – Ninguém vai mudar um ‘Acqua Vitae’, mas a gente toca diferente!

José Audísio – O legal do Saecvla é que parece que está tudo ensaiado, mas tem muito improviso no meio!

Giacomo Lombardi – Tem uma coisa no Saecvla Saecvlorvm que se chama: Interpretação! Está tudo ensaiado, mas a cada instante que a gente toca uma música a interpretação é diferente e isso é normal, é coisa de músico!

Marcus Viana – Então, eu acho que após o DVD vai dar um impulso muito grande, a gente vai ter muitos shows fora, e acho que a gente precisa dum CD legal. Porque este cd que vocês conhecem foi feito duma fita destruída!

Betto Fernandes (Uaishine)Verdade! Foi benzida e o escambáu! (risos)

Marcus Viana – O cara que masterizou isso, morreu! Essa fita foi parida do fim!

José Audísio – Essa fita era de ensaios nossos na Bemol!

Marcus Viana – Agora eles me apareceram com uma fita anterior a essa! (como se estivesse contando um segredo) É uma fita anterior à minha entrada!

José Audísio – Eu achei lá em casa! É de 74! (empolgado)

Giacomo Lombardi – Nem eu estava sabendo disso! (espantado)

José Audísio – É, achei semana passada! (empolgado)

Marcus Viana – Essa vai ser um bônus! (risos)

Giacomo Lombardi – Mas está com quem esta fita? Eu quero ouvir!

Marcus Viana – Está comigo, mas ainda não digitalizei!

José Audísio – Tem muito lance de cravo! Muito cravo! A gente podia voltar a explorar uns lances usando bastante cravo!

Betto Fernandes (Uaishine)Então pra finalizarmos essa entrevista, uma pergunta pro Léo e pro Jimmy…

Giacomo Lombardi – Ah, não! Acabou? (risos)

Betto Fernandes (Uaishine) Foi sensacional mesmo, eu também adorei, mas, voltando a pergunta, o que representa pra você dois tocar no Saecvla, ao lado destes dinossauros?

Giacomo Lombardi – Ah, se não falarem que é a melhor coisa na vida de vocês… (risos)

José Audísio – Olha lá, hein? (com a mão direita socando a mão esquerda num tom bem humorado de ameaça)

Leonardo Araújo – Pra mim foi a maior e melhor escola que eu já tive, de música, porque a cada ensaio eu aprendo uma coisa diferente, um valor diferente, e quando eu fui chamado pra fazer um teste pelo Zé, porque eu tocava com um sobrinho dele, e ele me entregou o disco eu não conhecia. Aí quando eu fui ver o encarte do disco e vi os nomes: Marcus Viana e aquele tanto de nome assim eu falei “nó, f***u!” (risos) Aí eu fui tentar tirar as músicas e não estava na afinação padrão, aí eu não conseguia tirar nada…

José Audísio – Isso aí derruba qualquer um!

Leonardo Araújo – Mas aí foi um custo tirar tudo, mas tirei, fui chamado e hoje faz parte da minha história, porque é aonde eu mais me divirto e nunca imaginei que fosse ter tanta liberdade pra criar e pra usar as coisas ao lado de pessoas que todo mundo é muito mais músico do que eu!

Marcus Viana – Não!

Giacomo Lombardi – Mentira!

José Audísio – Eu não!

Leonardo Araújo – Sim! Experiência de vida eu acho que soma muito a um músico!

José Audísio – Experiência de vida eu até concordo!

(todos começam a rir e o celular do Marcus começa a tocar)

Marcus Viana – Oi (falando ao telefone)

Marcus Viana – Você está atrapalhando a entrevista do Jimmy Duchowny aqui no fã clube do Saecvla Saecvlorvm. (falando ao telefone num tom de zombaria)

Marcus Viana – O que eu dei pros cachorros? (falando ao telefone meio surpreso)

(todos começam a rir)

Marcus Viana – Eles estão vomitando? (falando ao telefone bastante surpreso)

(todos começam a rir)

Marcus Viana – Eu dei hot dog pra eles! Vocês não quiseram comer! Eu dei pros cachorros, é ruim? (falando ao telefone)

(todos disparam em gargalhadas)

Giacomo Lombardi – Um cachorro vai comer outro, Marquinhos? Isso é canibalismo!

(todos disparam em gargalhadas)

Marcus Viana – Os meninos estão falando aqui que é canibalismo! (falando ao telefone em meio a risadas) Foi isso que eu dei, mas eles comeram gelo, também! (falando ao telefone com voz preocupada)

José Audísio – Cachorro? Comendo gelo e hot dog? É bom que dá uma equilibrada!

(todos disparam em gargalhadas)

Marcus Viana – Daqui a pouco estou em casa, estamos acabando a entrevista com o Betto. Tchau. (falando ao telefone)

José Audísio – Jimmy, cuidado com o Marquinhos! (risos)

Jimmy Duchowny – Quando eu cheguei ao Brasil eu estava aprendendo português assistindo novelas, aí a primeira novela que eu assisti foi ‘Pantanal’ e eu me apaixonei pela música aí eu descobri que era música dele, e quando eu mudei pra cá pra Minas foi uma grande honra conhecer ele, aí eu conheci essa dupla aí, grandes músicos também. Eu comecei como roqueiro durante muitos anos eu tocava rock’n’roll…

Giacomo Lombardi – Você tocou com um pessoal famoso…

José Audísio – Steppenwolf! Já ouviu? (cantarolando a canção Born To Be Wild)

Betto Fernandes (Uaishine)P**a m***a! Claro que conheço! Hino do Rock! (espantado)

Jimmy Duchowny – Então, eu comecei fazendo isso, mas minha paixão é o jazz, aí eu estudei em Berkley, uma escola de jazz nos Estados Unidos, aí música virou minha vida! Aqui é uma maneira de voltar aos velhos tempos, é uma coisa meio esquizofrênica, eu posso tocar mais forte e os shows são muito divertidos!

Giacomo Lombardi – Olha como o mundo é muito ‘esquésito’ e ‘estronho’, No enterro do Mario Castelo, que era o nosso outro baterista, eu encontrei com o Jimmy na porta do cemitério, pra você ver que banda dark é essa! (risos) Aí eu falei assim “é, Jimmy, acho que chegou a hora de vir tocar com a gente!” aí ele pegou o disco e uma semana depois a gente estava dando continuidade à banda. E a gente já havia tocado juntos, uma ou duas vezes! E com a morte do Mário, que foi uma síncope pra todo mundo! Porque esta parece uma banda serial killer de baterista! (risos) Ainda bem que o Jimmy é esportista! Porque o Bob Walter já havia morrido, aí morre o Mário Castelo, que era discípulo do Bob…

Marcus Viana – E que foi um dos caras que catalisaram a volta do Saecvla!

José Audísio – Nós chegamos a ensaiar na casa do Mário, no inicio, ele estava aprendendo bateria!

Giacomo Lombardi – E olha que coisa louca, assim que o Mário acabou de ser enterrado, eu estava saindo e eu estava junto com Zé, eu encontrei com o Balona, com os Borges todos, aí eu vi o Jimmy!

Marcus Viana – Você conhecia o Mário? (perguntando ao Jimmy)

Jimmy Duchowny – Conhecia! Era muito meu amigo!

Giacomo Lombardi – E o Jimmy é uma sumidade, veio acrescentar algo que eu sei falar o que está acontecendo! Aliás, você estava no show na Praça do Papa e você viu!

Betto Fernandes (Uaishine)Nossa! (empolgado)

Giacomo Lombardi – Então, é isso! Você viu como o papo foi longe, não é?! (risos)

José Audísio – Esse é o ensaio do Saecvla! (risos)

Betto Fernandes (Uaishine)Então obrigado, moçada! Foi um prazerão estar com vocês! Muito obrigado pela boa vontade, e muita luz a todos vocês! Que em breve o Progshine, através do Uaishine, que eu comando, esteja noticiando a meteórica ascensão do Saecvla Saecvlorvm! Muita luz a todos e mais uma vez muito obrigado por tudo!

Agradeço a todos que leram esta coluna e pra finalizar, como agradecimento, disponibilizo a canção Constelação de Aquarius, também oriunda do disco de 1976, entretanto esta versão é do show de gravação do DVD, realizado na Praça do Papa. Clique aqui para baixar esta canção cedida exclusivamente a nós.

Espero que tenham gostado, em breve divulgaremos os ganhadores dos cds, e retornaremos a tratar de mais um capítulo da vasta enciclopédia do movimento progressivo mineiro.

… and the Progshine, uai!

Para maiores informações e para comprar o CD acesse o site do selo de Marcus Viana, a Sonhos & Sons.

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14 comentários em “Entrevista Saecvla Saecvlorvm – Pelos Séculos Dos Séculos”

  1. Sensasional.
    Foi muito por acaso que também cheguei aqui, e simplesmente adorei a matéria, toda essa riqueza de informações e conteúdo e essa, esse astral, essa coisa contagiante do site.
    E foi por causa desse acaso que acabo de conhecer essa maravilha de banda.
    Não resisti e adicionei essa matéria a meu blog.
    Muito bom!! : )

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  2. Putz, que demais!
    Já conhecia o trabalho maravilhoso do Marcus, mas não tinha ouvido ainda o Saecvla Saecvlorvm. Nossa que demais!!!
    Amei a entrevista e toda a matéria.
    Obrigada por me apresentarem algo tão singular!

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  3. Sou aficionado por rock progressivo, e já ouvi de tudo nessa vida. Um belo dia estava baixando álbuns pela internet, quando vi o Saecula e resolvi “trazê-lo” ao meu encontro. Só tenho uma palavra para descrever minha impressão inicial SOBERBO!!!!! Abs

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  4. Eu moro em Belo Horizonte e conheci o Saecvla há uns 4 anos. Certa vez conheci por acaso num rock bar da cidade o guitarrista deles que é gente boa pra caramba por sinal e esse encontro rendeu um bom papo sobre música e guitarristas – Blackmore, Morse, Howe e por aí foi… Lamento o show que perdi deles na praça do papa em 2007! Parabéns a quem conseguiu essa excelente entrevista e a informalidade deu um toque especial. Amanhã volto para acabar de ler o resto – pois ficou imensa!Abç

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  5. CARAMBA !!! Não sabia que o Marcos Viana era integrante dessa banda antes de formar o Sagrado Coração da Terra , agora me interessei por esse grade icone do Rock Progressivo Brasileiro dos anos 70 (teria sido uma epoca boa como os anos 80 , se não fosse os incomodos e infortunios do Governo Militar) . Queria saber onde posso encontrar esse CD com as musicas ineditas do Saecula Saeculorum que foram gravadas em fitas K7 , de 1974 a 1977 . Já procurei em em lojas especializadas em Belém do Pará (eu moro em Ananindeua , região metropolitana da capital) e não encontrei , mas me falaram que eu posso encontrar esse CD na Galeria do Rock em São Paulo/SP (como seria bom se Belém do Pará também tivesse uma Galeria do Rock) por um preço bem barato . Isso é verdade ? Agradeço quem puder me ajudar , pois estou muito curioso para ouvir e conhecer essa banda . Espero que nesse ano de 2011 , o Saecula Saeculorum venha a fazer shows em todas as capitais brasileiras (por favor , não se esqueçam de colocar Belém do Pará na rota da turne) . Abraço a Todos . Vida longa ao Rock Progressivo Brasileiro .

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  6. Procurava Informações sobre o Marcus e acabei encontrando mais do que esperava. O que foi uma surpresa maravilhosa descobrir sobra essa banda e sobre a trajetória bacana da vida dos caras. Também sou músico e isso só me inspira, pois realmente tentar música em nosso país não é nada fácil. Obrigado e parabéns.

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