Paêbirú: A História Do Disco Mais Caro Do Brasil, É Investigada Em Documentário


Por Leonardo Lichote

Inscrições rupestres misteriosas, mitos indígenas, boas doses de psicodelia, uma busca para reconstruir as obscuras origens de uma lenda da música brasileira… O roteiro tem elementos que parecem moldados para a ficção, algo como um Indiana Jones lisérgico. Mas “Nas paredes da pedra encantada”, filme de Cristiano Bastos e Leonardo Bonfim, é um documentário – um “road doc”, como define Cristiano – que investiga a história do raríssimo disco Paêbirú: Caminho Da Montanha Do Sol (1975), de Zé Ramalho e Lula Côrtes, lançado em 1975.

– Há vários motivos para se falar de Paêbirú (1975) – defende Cristiano. – É o disco mais caro do Brasil, sua última cotação está entre R$ 4 mil e R$ 5 mil, o dobro do Louco Por Você (1961), o primeiro de Roberto Carlos (existe uma edição pirata, em vinil, de Paêbirú (1975), lançada na Europa, mas que não vem com o livro que acompanhava o original, trazendo estudos sobre a região e informações sobre a lenda do Caminho da Montanha do Sol). Mais que a raridade, ele é o fundador de uma psicodelia genuinamente brasileira, com elementos da cultura indígena. E sua história tem toda uma mística. Das únicas 1.300 cópias da prensagem original, 1.000 foram perdidas numa enchente em Recife. Nunca vi uma história tão fantástica como a que circunda esse álbum.

Zé Ramalho & Lula Côrtes

Jornalista, Cristiano tomou contato com a fantástica história quando fez uma reportagem para a revista “Rolling Stone” sobre o disco. Quando percebeu que sua apuração poderia render um documentário, se lançou com Leonardo Bonfim na aventura de tentar reconstituir os fatores que permitiram o surgimento do álbum. O termo “aventura” não é exagero. Cristiano morou entre Pernambuco e Paraíba por três meses, investiu dinheiro do seu bolso no filme – atualmente em fase de montagem – e penou para encontrar seus personagens. Mais que isso, quase foi preso durante as filmagens:

– Estávamos na cidade do Ingá do Bacamarte (município da Paraíba onde se localiza a Pedra do Ingá, onde estavam as inscrições que serviram de estopim para o processo criativo que gerou o disco) quando a polícia nos abordou, com vários carros e armas apontadas para nós. Estava havendo uma onda de assaltos a bancos na região, e eles, vendo aquele grupo andando de um lado para o outro e fazendo ligações, acharam que éramos ladrões. Tivemos que ser libertados pelo prefeito, que já sabia do projeto e inclusive colaborou com dinheiro para as filmagens.

Lps originais, lançados em 1975

O filme – ao qual O GLOBO teve acesso exclusivo – traz entrevistas com personagens como os músicos Lula Côrtes e Alceu Valença (que toca no disco), o arqueólogo Raul Córdula (que apresentou a Pedra do Ingá a Lula e a Zé Ramalho) e a cineasta Kátia Mesel (companheira de Lula então e sócia dele no selo Abrakadabra, que lançou o disco). As gravações registram muitos momentos musicais espontâneos e até cenas que reforçam as lendas em torno do disco.

– Cada lado do álbum duplo de “Paêbirú” tem um conceito: fogo, terra, ar e água. Cada um tem uma sonoridade. Fogo é o lado mais roqueiro, ar são músicas mais etéreas… No lado da água, tem uma parte que faz louvações a Iemanjá. No filme, quando Kátia Mesel canta isso, começa a chover – narra Cristiano, que alimenta mais um tanto a mística ao dedicar o filme ao deus Sumé (parte da mitologia de “Paêbirú”).

Zé Ramalho – que até hoje visita a Pedra e acredita que extraterrestres estão por trás de suas inscrições – não dá depoimento para o filme. Mas autorizou os diretores a usar todas as músicas para contar a história.

Lps e encarte originais, lançados em 1975

– Existe uma rusga entre Zé e Lula, e Zé preferiu não falar sobre o álbum. Mas todos no filme falam dele com muito carinho – nota Cristiano. – Apesar de negar a entrevista, Zé foi muito gente fina, fez um documento liberando a música… Só não queria ter a imagem dele hoje no filme. Ele pergunta por que não falaram do disco quando ele foi lançado (o álbum foi completamente ignorado na época). Aquilo foi muito decepcionante. Além de tudo, Zé Ramalho considera a obra que ele fez solo, posteriormente, muito mais importante. Como o disco tinha um aspecto coletivo, ele ali não tem o peso de ser o portador da mensagem, é só mais uma das vozes.

Mesmo antes da finalização, os diretores já receberam convites para apresentar o filme em festivais.

– Nosso desejo é estrear no “É tudo verdade” – diz Cristiano. – Seria ótimo também ter a exibição na TV, num espaço como o Canal Brasil.

Eles contam com a força da história. E os poderes de Sumé.

Outros olhos voltados para Zé Ramalho
Além do documentário sobre Paêbirú (1975), há outros olhos voltados para a história do autor de “Admirável Gado Novo”. O diretor Elinaldo Rodrigues filmou “Zé Ramalho – O Herdeiro De Avôhai“, lançado em DVD e exibido em festivais no ano passado, e a jornalista Christina Fuscaldo prepara uma biografia sobre o músico.

Detalhe do encarte

O filme tem como guia um depoimento de Zé Ramalho, que é cruzado com entrevistas dadas por amigos seus da época em que ele tocava em conjuntos de bailes, colegas da infância, produtores e músicos como Elba Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo.

– Vejo Zé como símbolo do povo nordestino, que encontra na arte seus instrumentos mais poderosos. Ele superou todos os desafios, como artista e como pessoa. Houve a pobreza no início, o desejo da família que queria que ele fosse médico, e mesmo assim ele largou o curso em busca de seu sonho. Depois foram inúmeros outros até lançar um disco, vieram a dependência química, o desinteresse das gravadoras mesmo depois de todo o sucesso… – diz o diretor.

Uma trajetória que Christina pretende detalhar em sua biografia, atualmente em fase de coleta de depoimentos e pesquisa. Ela tem a carta branca do compositor, que entregou em suas mãos todo o seu arquivo pessoal. A autora destaca – assim como Elinaldo e Cristiano – a força do mito de Zé Ramalho e o tamanho de seu público espalhado pelo Brasil, mas tem dificuldades para encontrar uma editora interessada.

– Um editor chegou a me dizer que Zé Ramalho venderia apenas dois livros – conta. – Sua vida é riquíssima, única, assim como seu caminho na MPB.

Veja logo abaixo o trailer do documentário:

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Zé Ramalho Apresenta Show "Parceria Dos Viajantes" Em Florianópolis E Joinville


Há 30 anos José Ramalho Neto iniciava sua carreia musical com uma voz forte e grave que se tornaria sua marca registrada, assim como a mistura de elementos que insere em sua música.

Atualmente, o músico divulga o álbum “Parceria dos Viajantes”, lançado no ano passado. O álbum conta com participações de Jorge Mautner, Pitty, Paulo Ricardo, Sandra de Sá, Zélia Duncan e João Barone, entre outros.

O cantor, compositor, tocador e trovador se apresenta nos dias 18 e 19 no sul do país, nas cidades de Florianópolis e Joinville, respectivamente, acompanhado da banda Z. Confira detalhes:

18/09/2008 – Florianópolis/SC
Florianópolis Music Hall – Rua Henrique Valgas, 113
Horário: 22h00
Ingressos: pista (2º Lote R$ 60,00 / 3º Lote R$ 80,00), cadeiras numeradas (R$ 100,00 a R$ 120,00)
Informações: 48 3222-8416 / www.floripamusichall.com.br

19/09/2008 – Joinville/SC
Big Bowlling – Rua São Paulo, 185
Horário: 23h00
Ingressos: R$ 40,00 (1º lote)
Informações: 47 3433-1233 / www.bigbowllingjoinville.com.br

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Zé Ramalho Mostra Raridades Do Baú


Por Beto Feitosa

Zé Ramalho abre seu baú e revela jóias do início da carreira. Zé Ramalho da Paraíba, o CD duplo, traz gravações feitas no início da carreira do compositor em shows que aconteceram entre 1973 e 1977. Os originais estavam em K7s gravados direto da mesa de som dessas apresentações e foram compiladas pelo pesquisador Marcelo Fróes, que lança seu selo Discobertas com distribuição da Coqueiro Verde.

Bem recuperadas mas preservando as imperfeições como microfonias e ruídos, o material é de grande valor histórico. Na época o artista se chamava Zé Ramalho da Paraíba, nome ou cartão de apresentação recuperado no disco.

No show de 1973, Zé Ramalho mostra o embrião de um de seus grandes sucessos. O já bem rodado Táxi lunar aparece com intenções mais roqueiras e longo solo de guitarra com cores progressivas de Josué (Oh yeah) – assinado assim mesmo. Segue com o Jacarepaguá blues, bom hit de seus shows na época.

Poucos anos antes de começar esse início de trabalho autoral, ainda na Paraíba, Zé Ramalho tocava em conjuntos de baile com repertório de Jovem Guarda. A partir de Roberto e Erasmo e sua turma, Zé Ramalho descobriu os acordes dos Rolling Stones, Pink Floyd e Bob Dylan. Há muito desse som no primeiro show. Paraíba hospitaleira tem cores de Stones, enquanto Terremotos é puro Beatles da primeira fase.

Essas influências deságuam no início de estrada, assim como suas influências nordestinas. Zé Ramalho apresenta no show O autor da natureza, de Zé Vicente da Paraíba, Passarinho do Norte e Bráulio Tavares. A música foi gravada, dois anos depois, por Marilia Pêra em seu ousado álbum experimental Feiticeira. Essa fase pouco conhecida do compositor está registrada oficialmente no raríssimo LP que dividiu com Lula Cortes em 1974.

Zé Ramalho só viria a lançar seu primeiro trabalho solo em 1977 com o grande sucesso Avôhai. Aqui a música aparece em registro do show Coletiva de música brasileira, um ano antes do sucesso. Em versão voz e violão com mais de dez minutos, anuncia: “Essa música que a gente vai tocar é muito especial pra mim, me permitam abusar disso”, conta explicando que foi feita em homenagem a seu avô que havia falecido três dias antes. “Eu nunca tive pai, então vovô fez o papel de avô, de pai e antes de morrer fez o papel de filho pra mim. Avôhai é uma palavra mágica, significa avô e pai”, explica. Cheio de atitude, esse show inclui bons textos, discursos e até corte de cabelo em cena.

A última faixa do álbum duplo dá a deixa para o primeiro capítulo da história discográfica oficial. Rio de Janeiro, janeiro de 1977. Zé Ramalho canta Admirável gado novo em versão voz e violão que já chega perto do arranjo que faria sucesso dois anos depois.

Como garimpador profissional, Marcelo Fróes fez questão de um caprichado encarte com crédito para os músicos, letras e texto explicativo. O lançamento é o primeiro título do bem vindo selo Discobertas, criado por Marcelo para lançar esse tipo de projeto. Os próximos lançamentos trazem gravações de Jackson do Pandeiro e Renato Russo.

Zé Ramalho, que esse ano comemora 40 anos de carreira, é aqui revelado em um capítulo inicial de sua trajetória artística. As faixas recuperadas são 23 peças dessa história. Tropicália, Jovem Guarda, rock britânico e sertão se misturam na formação do compositor. Antes que caísse na rede em arquivos soltos, está aí o retrato inicial do artista, devidamente organizado e bem apresentado.

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